Dona Laura, uma mulher forte que viveu outras mulheres

Uma peça rara I

Antes de continuar, quero agradecer as amigas e amigos que solidarizaram comigo e minha família, que nos trouxeram palavras de carinho, conforto e amparo.

Minha mãe foi uma peça rara – nos dois sentidos que esta expressão requer. Quem conviveu mais intimamente com ela sabe do que falo. Era ao mesmo tempo uma pessoa espetacular por sua inteligência, perspicácia, ironia e humor e calculadamente pentelha – eu a chamava de Miss Pen Taylor, aquela personagem da antiga novela Vamp.

Ela adorava perturbar todos à sua volta com suas opiniões ferinas e deboches disfarçados. Pegar no pé de netos era seu esporte preferido. Reclamar de visitas que não repetiam ao menos três vezes as refeições que ela preparava desencadeava uma série de observações perturbadoras acerca da vida, inclusive íntima, de quem a contrariava.

Dona Laura se fazia de surda de acordo com as conveniências e adorava pronunciar algumas palavras erradas e a gente sempre achava que era por pura sacanagem e vontade de escandalizar (outro esporte preferido dela).

Por exemplo: dente não era extraído; era “distraído”.

Então, para ela, quando alguém ia ao dentista arrancar um dente, ia “distrair” um dente. E quando era corrigida, ela dava um sorriso com os dentes entrecortados (outra característica dela) e afirmava: “Sim, isto mesmo, foi distrair o dente”.

Clarice Laura foi uma mulher forte, muito forte. Com o devido desconto a dar a um filho no calor da tristeza e saudade, revolvendo sua história com ela, a comparo a personagens da literatura e do cinema.

Ela foi Celie, de A Cor Púpura; a Ana Terra, de O Tempo e o Vento; a Úrsula Iguarán, de Cem anos de Solidão; a Patsey, de Doze Anos de Escravidão; a Dona Benta e a Tia Anastásia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo; a Sinhá Vitória, de Vidas Secas; a malandra Oda Mae Brown, de Ghost, o Outro Lado da Vida; e, segundo as más línguas dentro da própria família, a Séverine, de A Bela da Tarde.

Dona Laura foi uma criança que sofreu nas mãos de uma madrasta que controlava a comida dos filhos da primeira mulher de meu avó, Pedro Alves. Os cinco biológicos dele eram os últimos em tudo para minha vó Mariinha.

Segunda mais velha da prole, era encarregada de cuidar dos irmãos menores. Quando meu avô resolveu, em 1956, seguir para trabalhar na construção de Brasília, minha mãe foi quem, durante a viagem, cuidou da maioria dos outros 21 meninos e meninas que ele adotou. E seguiram todos de Mundo Novo, na Bahia, por quase três meses no lombo de cavalos, burros e bois.

Já no Planalto Central, ela, com 19 anos, foi trabalhar como lavadeira de roupas dos peões e garçonete nos refeitórios das empresas que estavam construindo a nova capital federal. E foi num desses refeitórios, o da Coenge, a companhia responsável pela terraplanagem e pavimentação da nova cidade, que dona Laura conheceu o paulista de Guarulhos José Orozimbo da Silva, meu pai. Casaram-se em 1958 e dois anos depois, mais exatamente em 24 de junho de 1960, eu nasci no acampamento da empresa às margens do Lago Paranoá, onde é hoje o Parque Dom Bosco.

Tiveram sete filhos, dos quais três morreram devido a pobreza que a família enfrentou por muitos anos, em meio à fome e doenças.

Mesmo assim, ela saiu de Goiânia, onde morávamos na década de 70, e foi a Uruaçu, quase 300 quilômetros distante, buscar sete sobrinhos cujos pais – a mãe era minha madrinha Jovina, uma das meninas que meu avó havia adotado lá na Bahia – haviam morrido e eles estavam abandonados.

Adotar sete crianças – com idades entre 1 ano e dois meses e 13 anos – de uma lapada só não é para qualquer um, não. Ainda mais naquelas condições em que vivíamos. Para dona Laura não tinha problema. Seu lema era: onde come um comem dois, onde comem dois comem quatro, onde comem quatro comem oito, onde comem oito comem 16 e assim por diante.

Solidariedade era outra característica desta mulher peça rara.

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