Dedo na ferida: Melhor deixar para quando o fascismo passar

Ou: a esquerda precisa exorcizar seus próprios fantasmas para avançar na luta sem hipocrisia, mas vamos deixar para depois?

 

Por João Negrão

 

“A hipocrisia é uma ferramenta da civilização”. A frase é atribuída ao cantor e compositor Gilberto Gil e, a meu ver, abriga uma verdade e uma contradição. A verdade: ser hipócrita evita conflitos, embates, guerras, ainda que (ou sempre) no plano ideológico. A contradição: hipocrisia por si só não é algo civilizado.

A matéria que publiquei sobre o racha na Frente de Mulheres Negras do Distrito Federal e Entorno revolveu sentimentos diversos e reações esperadas e surpresas.

Fui acusado de tudo. Inclusive de espião. Alguém que esteve no Ato por Comida e Vacina para dali extrair as informações sobre o referido racha. Ora queridas e queridos! Até então eu não sabia do racha. Fiquei sabendo lá e isto ocorreu porque a maioria das mulheres com as quais conversei me falou dele.

É importante lembrar que as pessoas, quando se reúnem, conversam entre si, expõem suas alegrias e angústias, suas impressões e posicionamentos.

E elas me falaram com indignação, de um lado e de outro, pelos caminhos tortos e tortuosos que levaram à cisão. Pelo que ouvi estavam ali embutidos dois elementos importantes emuladores das divergências políticas em movimentos sociais e partidos políticos de esquerda: a luta de classes e o personalismo.

Em essências esses foram os pontos que chegaram a mim, expressados pelas mulheres com as quais conversei, pelas quais nutro carinho, respeito e admiração. Foi neste momento que soube do racha. Aquele 18 de fevereiro faria nada menos que dez dias que eu havia retornado a Brasília, depois de quase exatamente um ano estive cumprindo tarefas profissionais em Cuiabá (MT)

Opiniões divergentes

“João, muito me surpreende você, uma pessoa que pareceu bem séria no dia do ato, tentando publicizar uma divisão de grupo, coisa que acontece em VÁRIOS [grifo original] outros espaços, principalmente em partidos políticos, e tentando colocar e questionar o trabalho de Mulheres Negras, sejam elas em quais grupos estejam. Acho que em tempos onde as divergências de opiniões entre pessoas negras estão tomando contornos extremos, quando nos querem sempre iguais, sempre dá mesma forma, sempre pensando do mesmo jeito, acho justo que sua ‘reportagem’ termine mostrando que mulheres negras, mesmo fazendo política, tem divergência de opiniões e tem mais é que ocupar ou não espaços onde se encontrem. Lamentável essa reportagem, para dizer o mínimo”, expressou uma pessoa querida num dos grupos que eu participava e fui excluído.

“Como se não tivessem absolutamente mais nada o que fazer, como se nossas ações se resumissem em fofocas e confusões, como se não lutassem todas, independente do grupo, por comida, auxílio e Vacina para o nosso povo preto. Sério, inacreditável. A quem interessa expor divisões dentro do movimento negro? Quem ganha com isso? Lamentável a postura de quem tenta tratar questões políticas como tabloide de fofoca. Tanto quem decidiu permanecer na FMNDFE quanto quem decidiu sair ainda se trata com o mínimo de respeito”, acrescentou outra postagem.

Vou tentar responder a importância de expor o racha. A questão não é ele em sim, mas as circunstâncias em que ele aconteceu. Não é de hoje que a Frente de Mulheres Negras do Distrito Federal e Entorno vive divergências importantes. Eu que passo ao largo deste movimento encontro notícias sobre com frequência. As questões de classe e o personalismo estão ali, não latentes, mas latejantes, escancarados. Isto incomoda muita gente, que, no entanto, prefere não escancarar tais chagas.

É lícito realçar que a luta de classes e o personalismo não são “privilégios” da FMNDE. São elementos que estão, como disse anteriormente, em todas as entidades, movimentos e partidos de esquerda. E que no meu entendimento eles devem ser levados à luz do debate. Para usar o termo do jornalismo, dever ser levados à luz do Sol, pois o Sol é o melhor desinfetante.

Faz quase três anos que eu rompi com o partido no qual militei 39 anos de minha vida de 60. O PC do B perdeu, para mim, toda a sua essência e princípios. Deixou de ser um partido da classe operária e do proletariado para virar uma agremiação pequeno-burguesa, do ponto de vista ideológico, e oportunista, do ponto de vista político. Ao me desligar em setembro de 2018, deixei bem claro meu posicionamento.

Agora, sobre a polêmica em torno da FMNDE, devo admitir algumas situações no meio desta polêmica. A primeira é que estou dividido entre a oportunidade e a conveniência, por dizer assim. Por isso tendo a dar razão às minhas e meus críticos, excluindo, por óbvio, os mais exaltados e injustos comigo

‘Brutais erros da maioria opressora’

Além do debate que travei no grupo do qual fui excluído (sem ressentimentos, pois entendo a posição de quem não quer um chato em suas cercanias), postei uma mensagem no Facebook em que me chamou a atenção dois comentários, ambos de colegas e amigos jornalistas.

Um deles é de Sergio Luiz Fernandes: “Penso mais ou menos assim. Tem dois ladrões. Um, roubou 100 milhões. O outro, uma caixa de chocolate de oito reais. Os dois são ladrões. Devem ser tratados da mesma forma? As minorias têm seus erros, pois são formadas de pessoas e as pessoas erram. É producente discutir, neste momento, os erros das minorias diante dos brutais erros da maioria opressora destas minorias? É minha dúvida”.

O outro é de Fábio Carvalho: “O ‘erro’ é essencializar pessoas a partir de uma determinada condição.

Mulheres negras foram as primeiras a elaborar pontos de fricção entre o racismo (que negros e negras sofrem) e o machismo (seria possível se aliar a feministas brancas?). Daí surgem ideias sofisticadas como as de interseccionalidade.

Gays podem ser misóginos. Mulheres podem ser escrotas. Homens brancos e heterossexuais podem ser bacanas. Homens negros não são violentos.

Essencializar (ou supor) condutas individuais a partir de determinada condição, ou performance, sempre dá ruim. E talvez fique pior quando se pretende ganho secundário a partir de conceitos sofisticados como o de ‘racismo estrutural’ (que virou modinha, mas tem um longo percurso intelectual, forjado especialmente por pensadores e pensadoras negras, até virar ‘gíria’ em bocas de Matildes).

P.S.: Não sei o que é racismo no movimento negro, mas soa mal demais se houver aproximação com ‘racismo reverso’ (que não existe). Militante escroto sempre houve…”

Eu acho que esses dois posicionamentos contribuem muito mais ao debate que proponho.

A minha postagem:

ABAIXO A HIPOCRISIA GERAL!

A esquerda que não consegue resolver sua própria hipocrisia não tem moral para criticar a dos demais.

Pautas minhas na mira. Alguém quer debater?

1 – Divergências no movimento negro

2 – Racismo nos movimentos de esquerda

3 – Racismo no movimento negro

4 – Machismo no movimento negro

5 – Assédio sexual, abuso e feminicídio entre militantes dos movimentos sociais

6 – Relacionamento abusivo LGBT

Topam o debate ou vão varrer a sujeira para debaixo do tapete?

Violência doméstica não tem ideologia?

Eu ainda acho que algumas das pautas acima são pertinentes para o momento. Inclusive a necessidade de se debater a luta de classes, personalismos e oportunismos.

Machismo, com todos os seus desdobramentos misóginos e de violência domésticas são pertinentes. É notório, por exemplo, a existência de um alto dirigente de um influente movimento negro que é um recorrente espancador de mulheres e continua por aí sorridente, saltitante e perambulante pelos Brasil afora. Como ele há muitos outros.

O relacionamento abusivo entre os LGBTQI+ é notícia frequente pelos meios afins, afeitos e correlatos de nossos movimentos. Merece serem trazidos à luz, não como situações individuais, mas como experiências importantes dentro da coletividade e como forma de buscar caminhos para evitar tais sofrimentos.

Eu acompanhei recentemente, mais exatamente em meados de novembro passado, por ocasião da revelação e desdobramentos policiais e judiciais de uma dos mais notórios casos de estupro de 2020, o de Mariana Ferrer, um breve debate no Facebook.

Uma militante de esquerda relatou que sofreu dois estupros e uma tentativa. Um estupro foi cometido por um dirigente do movimento estudantil e o segundo foi um dirigente jovem partidário. E a tentativa foi de outro dirigente do movimento estudantil, mas ela teve a sorte de conseguir escapar. Ela, que hoje é casada, era uma jovem ainda.

Na sequência de comentários, várias mulheres se posicionam e me chamou a atenção a de uma que revela ter sido estuprada dentro de casa aos oito anos de idade por um cunhado do pai. E que já jovem, aos 22 e 23 anos, foi novamente vítima de um dirigente político.

Esses relatos estão lá no Facebook ainda. Não vou linca-los por respeito a essas mulheres. Na época eu dialoguei com a autora da postagem original e anunciei que faria uma matéria sobre. Depois a informei que desistira da reportagens em respeito aos sentimentos dela e das demais, mas que iria investigar mais sobre os casos e com elementos e fontes mais acadêmicas.

Violência doméstica não tem ideologia? A “fúria de macho” – recorro a Gullar – não escolheria partido ou movimentos?

Eu penso ser necessário discutir todas essas relações de poder.

Estava no meu planejamento aqui e na TV 61 uma série de reportagens e temas de debate sobre as questões que elenquei acima. Denominados “Dedo na Ferida”, a ideia era trazer à luz esses assuntos.

A questão agora é: devo (ou devemos) debater agora temas tão fortes e caros para nós de esquerda num momento em que enfrentamos inimigos tão cruentos?

Confesso que me sinto e sentiria extremamente desconfortável ao ver minhas pautas e debates propostos sendo usados por nossos escancarados inimigos políticos, ideológicos e de classe.

Por esta razão vou adiá-las para quando o fascismo passar, nossa principal luta deste momento. Se até lá eu estiver vivo, retornarei. Me aguardem.

 

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