Por: Vicente Sérgio Brasil Fernandes (*) – Jornal Brasil Popular/DF
“Se queres a Paz, Trabalha pela Justiça”
Os artigos publicados nos dias 31 de março (1) e 6 de abril de 2026 (2) assinalam a celebração dos 40 anos da presença da Comissão Justiça e Paz de Brasília (CJP-DF) na arquidiocese de Brasília, destacando, respectivamente, seus dados históricos e os princípios pedagógico-pastorais. Dando continuidade a esse momento celebrativo, o presente texto busca apresentar e refletir sobre os fundamentos bíblicos, teológicos e eclesiais que justificam e orientam a existência e a atuação da Comissão.
Enquanto organismo associado ao espaço cristão-católico, a CJP-DF assume como eixo central de sua missão as temáticas da justiça e da paz, conforme já indicado na publicação do dia 6 de abril passado. Tais dimensões não são apenas parte conceitual, mas constituem conteúdos essenciais da fé cristã, enraizadas na Sagrada Escritura e desenvolvidas pela tradição teológica católica e pelo magistério da Igreja.
A Sagrada Escritura apresenta, em diversos momentos, a justiça e a paz como elementos fundamentais da vida humana e da relação com o Divino. No texto sagrado, esses conceitos aparecem absolutamente interconectados, revelando uma visão integral da vida social e espiritual.
No livro do profeta Isaías (32,16-18), encontramos uma das expressões mais significativas dessa relação unificadora. O texto apresenta a justiça como fundamento da paz, afirmando que “o direito habitará no deserto e a justiça morará no vergel” e “o fruto da justiça será a paz”, sendo que sua obra resultará em tranquilidade e segurança, pois, “o meu povo habitará em moradas de paz, em mansões seguras e em lugares tranquilos”. Trata-se de uma visão que ultrapassa a simples ausência de conflitos, propondo um estado de harmonia social baseado no respeito aos direitos e na dignidade de todos.
De modo semelhante, o Salmo 85, versículos 11-12 oferece uma imagem poética dessa realidade ao afirmar que “amor e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam; da terra germinará a Verdade e a Justiça se inclinará do céu”. Aqui, a justiça e a paz aparecem como frutos de uma ordem restaurada, na qual céu e terra se encontram em um movimento de reconciliação que aponta para a esperança de uma convivência plena.
No Novo Testamento, essa compreensão é aprofundada pela mensagem de Jesus. No Evangelho de Mateus (5,9-10), o evangelista assim nos aponta o que Jesus diz sobre a justiça e a paz, ao proclamar as bem-aventuranças: “Bem-aventurados os que promovem a paz” e “bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”. A paz, nesse contexto, assume o sentido pleno de shalom, indicando harmonia com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com toda a criação, envolvendo a casa e o trabalho, a prosperidade, a educação e a saúde, a boa convivência (entre os irmãos e as nações) e a alegria do estar juntos. Portanto, aqueles/as que promovem a paz estão construindo um ambiente concreto de justiça.
Assim, a justiça e a paz se revelam como pilares da mensagem bíblica, essenciais para a construção de relações humanas saudáveis e de uma sociedade verdadeiramente justa.
Na teologia cristã, justiça e paz são conceitos centrais que refletem o próprio caráter de Deus e seu projeto para a humanidade, bem como condições necessárias que devem ser trabalhadas em conjunto pelos/as seguidores/as de Cristo, para a construção de uma sociedade nova. Ambos nunca podem ser compreendidos de forma isolada.
A justiça, no pensamento teológico, é um essencial de Deus e uma exigência ética para quem o seguem. Ela não se limita ao aspecto punitivo (juízo contra o pecado realizado), mas possui uma dimensão restauradora, orientada para a reconciliação e a plenitude da vida. Nesse sentido, a justiça implica: dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido; viver com integridade e verdade; reconhecer que o bem individual está vinculado ao bem comum; e testemunhar uma autêntica conversão.
A paz, por sua vez, na teologia é compreendida como dom de Deus e tarefa humana. Ela não se reduz à ausência de violência, mas se configura como um estado de plenitude e harmonia, exigindo a absoluta rejeição das lógicas de guerra, opressão, violência e tudo que disto decorre, sendo construída a partir da verdade, do encontro, do diálogo e da partilha. Trata-se de um processo contínuo, que demanda compromisso, perseverança e abertura ao outro.
Dessa forma, justiça e paz não são apenas categorias jurídicas ou sociais, mas constituem um chamado ético e relacional. A prática dessas virtudes é condição essencial para a vivência autêntica da fé cristã.
A atuação da CJP-DF encontra também sólido fundamento no magistério da Igreja, especialmente na Doutrina Social da Igreja (DSI). Um marco importante nesse sentido é o Concílio Vaticano II, particularmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que, em seu número 90, propõe a criação de organismos voltados à promoção da justiça e ao desenvolvimento dos povos, quando assim diz: “Considerando a imensidade de sofrimentos que atormentam ainda hoje a maior parte do gênero humano e para fomentar em toda parte a justiça e o amor de Cristo para com os pobres, o Concílio julga muito oportuna a criação de um organismo da Igreja Universal com o fim de despertar a comunidade católica para a promoção do desenvolvimento das regiões empobrecidas e da justiça entre as nações” (3).
Esse chamado foi aprofundado ao longo das décadas seguintes em vários outros documentos e posicionamentos eclesiais. O Sínodo dos Bispos de 1971, por exemplo, com o tema “A Justiça no Mundo” (4), afirmou que o compromisso com a justiça é dimensão constitutiva da evangelização. As Conferências Episcopais Latino-Americanas, especialmente em Medellín e Puebla, reforçaram essa perspectiva ao destacar a necessidade de uma Igreja comprometida com a transformação das estruturas sociais injustas.
Mais recentemente, o pontificado do Papa Francisco na Laudato Si’(5) ampliou essa compreensão ao incluir o cuidado com a nossa “Casa Comum”, o planeta Terra, como parte integrante da missão cristã, reafirmando a interdependência entre Justiça Social, Paz e Ecologia Integral.
Já o Papa Leão, em face dos desafios dos contextos de guerra que estão presentes no início de seu pontificado, se posiciona no sentido de que a paz precisa ser intencional, quando afirma que “em um contexto internacional marcado por abusos e conflitos, lembramos que o oposto do diálogo não é o silêncio, mas a ofensa. Quem se cansa de dialogar, cansa-se de esperar pela paz”.(6) E sobre a justiça nos lembra que quando “a justiça é exercida com integridade e fidelidade à verdade, ela se torna um fator de estabilidade e de confiança dentro da sociedade, gerando como consequência natural a unidade”.(7)
A DSI, portanto, articula esses elementos a partir de princípios fundamentais, como a dignidade da pessoa humana; o primado do trabalho e o bem comum; a solidariedade; a subsidiariedade; a participação e a justiça social. Nesse horizonte, torna-se evidente que não há paz sem justiça, e que a promoção de uma implica necessariamente o compromisso com a outra.
À luz desses fundamentos, a CJP-DF configura-se como expressão concreta do compromisso da Igreja com a construção de uma sociedade mais justa e pacífica. Sua atuação é impulsionada tanto pela Palavra de Deus quanto pelo magistério e pela tradição eclesial.
A Comissão é chamada a exercer um papel profético, denunciando as injustiças e anunciando alternativas que apontem para uma nova realidade. Trata-se de um trabalho que envolve a formação de consciências, a promoção dos direitos humanos e o incentivo à participação social. Essa missão se insere na dinâmica do Reino de Deus, que se manifesta na história por meio de ações concretas de justiça, reconciliação e paz. Assim, a CJP-DF se torna sinal de esperança e instrumento de transformação, contribuindo para a construção de um mundo mais fraterno e solidário.
A celebração dos 40 anos da Comissão Justiça e Paz de Brasília oferece uma oportunidade privilegiada para reafirmar esta identidade e missão, fundamentada na Sagrada Escritura, na teologia e na Doutrina Social da Igreja, buscando sempre uma atuação que revele que justiça e paz são dimensões inseparáveis da fé cristã, ao tempo que convida para o engajamento de todos/as aqueles/as que desejam construir uma sociedade mais justa, onde a dignidade humana seja respeitada e promovida. Nesse horizonte, ressoa a esperança escatológica expressa no livro do Apocalipse (21,1-2), qual seja, a promessa de “um novo céu e uma nova terra”. Essa promessa não se limita ao futuro, mas inspira e orienta o compromisso presente com a transformação do mundo, tornando a missão da Comissão Justiça e Paz cada vez mais atual e necessária.
Vicente Sérgio Brasil Fernandes – Professor; Pós-Graduado em Filosofia e Existência; Sócio-Consultor da Studo Consultoria e membro da Comissão Justiça e Paz de Brasília.
(1) https://brasilpopular.com/comissao-justica-e-paz-de-brasilia-40-anos-primeiros-passos-momento-inaugural/.
(4) https://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_19711130_giustizia_po.html
(*) Por Vicente Sérgio Brasil Fernandes. Graduado em Filosofia. Pós-Graduado em Filosofia e Existência. Membro da Comissão de Justiça e Paz/DF. Professor no Instituto São Boaventura (ISB). Consultor na Studo Consultoria.
