Na série da Netflix, o medo não mora no além. Mora no bairro.
É assim que Meus Mortos Tristes, minissérie argentina que chegou à Netflix avisa que não está interessada em sustos fáceis. Os fanctasmas estão por toda parte nos quatro episódios dirigidos por Pablo Larraín. Mas quanto mais a história avança, mais fica claro que eles são só a ponta de algo muito mais incômodo. E esse algo não tem nada de sobrenatural.
Quem são os mortos que Ema escuta?
Esqueça casarões assombrados e espíritos vingativos. Os mortos de Ema são, em sua maioria, gente que morreu de forma violenta ali perto. O trabalho dela com essas presenças é quase de enfermeira: escutar, acalmar, fazer companhia. Não há exorcismo, não há missão heroica. Para Ema, conviver com fantasmas é só mais uma parte cansativa do dia.
A série adapta contos da escritora argentina Mariana Enriquez, que também assina o roteiro. No conto que dá nome à produção, os mortos do bairro são vítimas da violência urbana presas num ciclo de agonia, e os vizinhos, por medo ou indiferença, fingem não perceber. Foi aí que a série me pegou: o fantasma mais assustador de Meus Mortos Tristes é justamente aquele que todo mundo decidiu ignorar.
O bairro Piedrabuena existe, e é o verdadeiro protagonista
Toda a trama acontece diante do Barrio Piedrabuena, um conjunto habitacional real em Villa Lugano, no sul de Buenos Aires. Ema está vivendo na casa da mãe, bem em frente aos prédios gastos, onde coisas pesadas e perigosas acontecem todos os dias.
Larraín filma esse lugar como se ele respirasse. A câmera se demora nos espaços vazios, nos rostos cansados e, principalmente, numa enorme caixa d’água no alto do bairro, que parece vigiar os moradores como um monumento antigo e ameaçador. Guarde essa imagem. Ela vai importar mais do que parece.
O que os fantasmas realmente escondem
Mariana Enriquez já explicou que, nessas histórias, os fantasmas funcionam como memória: aquilo que volta o tempo todo e não se acalma porque está ligado a uma injustiça. Larraín foi na mesma direção ao dizer que, aqui, é o morto quem vem pedir para não ser esquecido.
É isso que torna Meus Mortos Tristes tão perturbadora. Os mortos de Piedrabuena não voltam para assustar. Voltam porque ninguém cuidou deles em vida, nem depois.
Encarar esses fantasmas significa admitir o abandono, a violência e a precariedade que o bairro aprendeu a tratar como paisagem. E Ema, que começa a série apática e irritada com tudo, vai sendo empurrada a olhar para isso de frente.
Meus Mortos Tristes está disponível na Netflix.

