Por: Ana Paula Daltoé Inglêz Barbalho – Jornal Brasil Popular/DF
O Grito dos Excluídos e Excluídas ocupa um espaço de denúncia na história recente das mobilizações sociais brasileiras. Realizado desde 1995, sempre no dia 7 de Setembro, o Grito dos Excluídos e Excluídas procura ressignificar os atos de celebração da Independência do Brasil por meio de uma pergunta essencialmente política, social e ética: independência para quem?[2].
Em lugar de reduzir a data nacional à memória narrativa do Brasil de 1822, ainda sob a égide do reinado português na dita “Independência do Brasil”, o Grito dos Excluídos e Excluídas propõe observar as condições concretas da realidade da vida de brasileiras e brasileiros contemporâneos e perguntar em que medida a independência política se converteu também em cidadania, dignidade, participação, direitos e oportunidades [2].
A proposta de realização do Grito dos Excluídos e Excluídas surge a partir do processo de avaliação da 2ª Semana Social Brasileira, realizada entre 1993 e 1994 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e recebeu também influência da Campanha da Fraternidade de 1995, dedicada à temática da fraternidade e dos excluídos. O primeiro Grito foi realizado em 7 de setembro de 1995, chegando a 170 localidades; em 1996, passou a integrar oficialmente a dimensão sociotransformadora da CNBB. Desde sua origem, portanto, existe uma relação histórica entre a mobilização e a tradição do pensamento social cristão, ainda que o movimento tenha adquirido caráter amplo, popular, ecumênico e inter-religioso.
Em vídeo-documentário disponível no Youtube sobre o 1º Grito dos Excluídos, que pode ser encontrado em https://www.youtube.com/watch?v=6xAayuk2gPM é possível dimensionar a romaria à Catedral Basílica de Nossa Senhora Aparecida, Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida [3].
Dom Luiz Demétrio Valentini, Bispo Emérito de Jales, inicia as entrevistas e indica: “É dia do Grito dos Excluídos. Foi pensado esse dia ainda no ano passado (1995), quando vislumbrávamos a Campanha da Fraternidade sobre os excluídos. E hoje a intenção é evidente. Na semana da Pátria, no dia da Pátria, que mais sentimos o clamor do povo brasileiro por vida, por fraternidade, por solidariedade. Um clamor que se ergue de todas as partes do Brasil. É um grito pela vida. Por isso que o lema é “A vida em primeiro lugar!”. Assim estamos recuperando a celebração do dia da Pátria para a cidadania. Sentimos que Pátria não é só um território. Pátria não são só leis. Pátria não é só um plano econômico. Pátria é a convivência fraterna de todas as pessoas” [3].
Na sequência, Padre Luiz Bassegio, então assessor para as pastorais sociais da CNBB, indica que a verdadeira independência existe quando todos tem casa para morar, todos tem trabalho, tem emprego, tem saúde, tem escola e que o Grito ocorre no dia 07 de setembro como forma de resgatar essa independência [3].
Desde 1995, muitas mudanças ocorreram no Brasil. Os dados de referência para o ano de 1990, publicados pelo IPEA no Mapa da Fome, reportavam 31,68 milhões de brasileiros, ditos “indigentes”, em 9 milhões de famílias com renda mensal suficiente para aquisição de apenas uma cesta básica alimentícia, caracterizando insegurança alimentar severa. A distribuição percentual era equivalente entre campo e cidade, com concentração na população do Nordeste brasileiro – 7,2 milhões de pessoas. O relatório é explícito ao afirmar que “a fome urbana dissemina-se por todo o território nacional” (Peliano, 1993, p. 5). O texto conta com a colaboração de ex-membro da Comissão Justiça e Paz de Brasília, professor doutor Guilherme Costa Delgado [4].
Em 2025, o Brasil foi declarado fora do Mapa da Fome publicado em ranking da Organização das Nações Unidas. O relatório “The State of Food Security and Nutrition in the World 2026”, em português “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026, publicado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO-ONU), indica que, apesar da melhoria gradual e sustentada nos últimos anos, a fome e a insegurança alimentar globais permanecem muito acima das metas estabelecidas pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Estima-se que 645 milhões de pessoas em todo o mundo tenham enfrentado a fome em 2025, o que equivale a 7,8% da população global [5].
O Brasil segue agora fora do Mapa da Fome e, de acordo com os dados do relatório, 16,7 milhões de brasileiras e brasileiros deixaram a condição de insegurança alimentar severa no triênio 2023-2025. O país mantém abaixo de 2,5% a proporção da população que não tem renda suficiente para consumir a quantidade mínima de calorias para uma vida saudável, segundo o indicador de Prevalência de Subnutrição (PoU, na sigla em inglês), utilizado pela FAO na construção do Mapa da Fome [6].
O relatório também apontou melhoria do país em diversos indicadores, como a diminuição da insegurança alimentar severa, chegando a 0,6% da população – o menor patamar da série histórica [6].
A 32ª edição do Grito dos Excluídos e Excluídas, em 2026, ocorreu entre 1º e 12 de setembro, tendo a data de 7 de setembro como momento central. Mantém o tema permanente “Vida em Primeiro Lugar!” e adotou como lema em 2026 “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”[2].

A belíssima imagem é síntese das lutas do Grito: no centro da composição, uma mulher negra segurando uma criança no colo. A mulher ocupa a posição de maior destaque e ergue um dos braços com o punho fechado, gesto visualmente associado à resistência, à luta coletiva e à afirmação de direitos. Seu rosto está voltado para cima, com expressão aberta e determinada, enquanto a criança permanece protegida em seus braços. A imagem reúne, assim, duas dimensões que atravessam todo o cartaz: força e cuidado. A mulher é representada como alguém que protesta, mas também como alguém que acolhe, protege e sustenta a vida.
A mulher estende com a outra mão a bandeira brasileira, que se abre como um fundo amplo sobre a cena. O verde, o amarelo e o azul envolvem a mulher e a criança, relembrando o 7 de setembro. Na parte inferior e nas laterais, observa-se uma multidão em manifestação, formada por pessoas diversas que carregam faixas e cartazes com os principais temas do Grito: referências à democracia, a expressão “Guerra não” e o chamado “Violência basta!”. Ao fundo, vemos casas, aproximando a mobilização das condições concretas de vida das comunidades.
Terra, paz, moradia, proteção da vida das mulheres e soberania constituem diferentes faces de uma mesma questão: quais condições econômicas, políticas e institucionais são necessárias para valorizar a vida e garantir a dignidade humana como centro da organização da sociedade?
Em 04 de outubro de 2020, Papa Francisco nos apresentava a Carta encíclica Fratelli Tutti com os direitos sagrados “Terra, Teto, Trabalho” – os 3T – essência do que move o Grito dos Excluídos e Excluídas [7].
A mesma data, em 2026 constitui-se significativa pelas eleições gerais no Brasil: em 04 de outubro, mais de 155 milhões de brasileiros estão convocados às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais ou distritais [8].
O Brasil de 2026 enfrenta um processo eleitoral desenvolvido em ambiente de forte competição política, polarização e crescente influência das plataformas digitais e da inteligência artificial sobre a circulação de informações. A Justiça Eleitoral precisou ampliar sua atenção sobre conteúdos produzidos artificialmente, deepfakes e desinformação, demonstrando que a própria qualidade do debate público se tornou parte da disputa sobre a democracia brasileira.
Entretanto, compreender o Brasil apenas pela polarização eleitoral seria insuficiente. O país apresenta uma realidade social contraditória. De um lado, indicadores de renda, emprego e pobreza apresentaram melhora nos últimos anos. Dados baseados nas pesquisas do IBGE indicaram redução da pobreza e da extrema pobreza, enquanto a desigualdade medida pela renda domiciliar alcançou patamares historicamente baixos [9].
De outro, análises de dados tributários mostram que a participação dos muito ricos na renda nacional aumentou, indicando que redução da pobreza e concentração patrimonial podem ocorrer simultaneamente [9, 10, 11, 12]. Em outras palavras, melhorar as condições de quem está na base não significa necessariamente superar os mecanismos que concentram grande parcela da riqueza no topo.
“Reduzir as desigualdades exige também equilibrar a capacidade dos diferentes grupos da sociedade de participar, influenciar decisões e disputar a destinação dos recursos públicos”, diz Viviana Santiago diretora executiva da Oxfam Brasil [9].
Esse apanhado de contradições é fundamental para compreender o significado contemporâneo da exclusão: a exclusão do século XXI não se manifesta apenas pela ausência absoluta de renda. Ela aparece também no acesso desigual à terra, à moradia, à segurança, aos serviços públicos, à tecnologia, à representação política e às oportunidades de desenvolvimento.
O Grito dos Excluídos e Excluídas representa parte da materialização desta visibilização das contradições e mantém viva a pastoralidade da Doutrina Social da Igreja, trazendo a mobilização social como chave ação para a construção da mudança dos mais diversos aspectos da vida em sociedade.
Referências
[2] Grito dos Excluídos e Excluídas. Histórico, princípios e informações da 32ª edição, 2026. https://www.gritodosexcluidos.com/
[3] 1º Grito dos Excluídos, vídeo-documentário que pode ser encontrado em https://www.youtube.com/watch?v=6xAayuk2gPM
[4] PELIANO, Anna Maria T. M. (coord.). O mapa da fome: subsídios à formulação de uma política de segurança alimentar. Brasília, DF: Instituto de Política Econômica Aplicada – IPEA, 1993. (Documento de Política, n. 14). Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/o-mapa-da-fome-vol1.pdf. Acesso em: 19 set. 2026.
[5] “The State of Food Security and Nutrition in the World 2026”, em português “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026, publicado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO-ONU). Disponível em: https://openknowledge.fao.org/handle/20.500.14283/cd8306en. Acesso em 08 set. 2026
[6] Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Brasil. Relatório da ONU confirma que Brasil permanece fora do Mapa da Fome e aponta melhora em indicadores. Disponível em: https://www.gov.br/mds/pt-br/noticias/relatorio-da-onu-confirma-que-brasil-permanece-fora-do-mapa-da-fome-e-aponta-melhora-em-indicadores. Acesso em 08 set. 2026
[7] Fratelli Tutti – Sobre a fraternidade e a amizade social. Vaticano, 2020. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html. Acesso em 19 set. 2026
[8] Tribunal Superior Eleitoral. Calendário das Eleições Gerais de 2026. https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Marco/eleicoes-2026-confira-as-principais-datas-do-calendario-eleitoral. Acesso em 08 set. 2026
[9] Síntese de Indicadores Sociais – 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza entre 2023 e 2024. Agência IBGE Notícia. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45344-8-6-milhoes-de-pessoas-sairam-da-pobreza-entre-2023-e-2024. Acesso em 08 set. 2026.
[10] Concentração de riqueza amplia desigualdade de poder e ameaça democracia no Brasil, aponta Oxfam. https://www.oxfam.org.br/concentracao-de-riqueza-amplia-desigualdade-de-poder-e-ameaca-democracia-no-brasil-aponta-oxfam/. Acesso em 08 set. 2026
[11] Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/retratos-das-desigualdades-brasileiras-poder-privilegio-e-a-captura-da-democracia/. Acesso em 08 set. 2026
[12] Desigualdade: 1% mais rico concentra quase um quarto de toda a renda do país, aponta estudo da Oxfam. Disponível em https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/08/20/desigualdade-renda-brasil-estudo-oxfam.ghtml. Acesso em 08 set. 2026.
(*) Ana Paula Daltoé Inglêz Barbalho, ouvidora do Ministério das Mulheres, Advogada e ativista e Presidente da Comissão Justiça e Paz de Brasília.

