POR Guilherme Rocha
Em 2016, Linn da Quebrada começava a trilhar uma trajetória que, dez anos depois, ultrapassa a música e atravessa diferentes áreas da cultura brasileira. “Enviadescer”, “Bixa Preta” e “Talento”, lançadas naquele ano, ajudaram a apresentar uma artista que transformaria suas experiências, seu corpo e sua identidade em linguagem, abrindo espaço para novas possibilidades de criação e representação.
Linn também se desenvolveu em meio a uma geração de artistas que, naquele mesmo período, começava a transformar a presença de corpos trans e travestis na música e na cultura brasileira. Jup do Bairro, sua parceira de criação em diferentes momentos, Liniker e Ventura Profana são alguns dos nomes que, cada uma a seu modo, ajudaram a construir esse novo momento da cena.
Sua importância para a música brasileira também está em ter colocado no centro da criação experiências e corpos que durante muito tempo foram empurrados para as margens. Com uma obra autoral, experimental e profundamente ligada à própria vivência, Linn ajudou a ampliar as possibilidades de representação e a mostrar que diferentes formas de existir também poderiam ocupar o centro da cena.
Ao longo dessa década, Linn passou pela música, pelo cinema, pela televisão, pela literatura e pela performance, tornando-se referência para artistas de diferentes gerações e áreas. Hoje, nomes como Urias, Vita Pereira, Isma Almeida, Katy da Voz, Palladino Proibida e tantas outras artistas reconhecem em Linn uma referência e inspiração para suas próprias trajetórias. Ao mesmo tempo, ela segue acompanhando, celebrando e demonstrando orgulho por quem está criando agora.
Essa relação com a nova geração também chama atenção pela maneira como Linn demonstra orgulho e generosidade ao falar sobre outras artistas. Para ela, o que foi construído nunca esteve separado do coletivo. “Uma cena foi surgindo, e eu fazia parte dela”, conta à FFW.
Talvez seja justamente essa dimensão coletiva que torne seus dez anos de trajetória ainda mais importantes. Ao olhar para os caminhos que se abriram desde então, Linn resume: “Ver isso ganhar novos afluentes é magnífico. É continuidade. Somos essa continuação, um sonho encarnado”.

Este ano marca dez anos da sua trajetória artística. Quando você olha para a Lina que começou essa caminhada, o que mais te emociona ao reconhecê-la hoje? Existe alguma versão sua que ficou para trás, mas ainda te acompanha de alguma forma?
Quando olho para trás, me emociono ao perceber o quanto fui corajosa. Há 10 anos, eu não tinha nada a perder, mas jamais poderia imaginar que tivesse tanto a ganhar, conhecer e construir. E é justamente essa coragem, esse ímpeto criativo e essa vontade de viver que sempre me emocionaram na Linn da Quebrada. Essa parte de mim que foi fundamental para que eu chegasse até aqui hoje, me surpreendendo com a vida.
Ao longo dessa década, você transitou entre a música, o cinema, a televisão, a literatura e a performance. O que permaneceu igual na artista que você é e o que mudou nas demandas que movem a sua criação?
Essa é uma ótima pergunta. Eu não sei dizer se há algo que permaneceu igual. Minha arte, meu fazer artístico, toca minha vida de uma maneira que a transforma completamente. Meu modo de ser e estar no mundo é movido pela minha capacidade de criar sobre mim mesma, numa experimentação estética e radical. E cada uma dessas linguagens, o audiovisual, a música e mesmo a escrita, me apresentou algo que me modificou e contribuiu até para o meu processo de transição, para a construção da minha própria identidade, das minhas relações e, consequentemente, do meu tempo: do presente e do futuro que estou vivendo agora.
Me sinto criatura e criadora, a médica e a monstra, Frankenstein de meus próprios experimentos. A música é meu feitiço, que milagrosamente se voltou contra a própria feiticeira. Ao responder essa pergunta, percebo que as palavras, em especial, são um dos principais fundamentos que me movem.
Em que momento você percebeu que tinha deixado de ser apenas uma artista para se tornar uma referência para tantas pessoas? Como equilibrar essa responsabilidade sem deixar que ela limite sua liberdade criativa?
Difícil responder essa pergunta. Sinto que é algo que preciso apaziguar em mim constantemente. Acredito que um dos maiores desafios de uma artista seja, talvez, falar sobre o presente. Ou mesmo falar com ele, dialogar com o seu tempo. E algo muito poderoso pode nascer desse diálogo: a capacidade de construir o próprio presente, de modificá-lo.
Com Pajubá, sinto que isso, de alguma maneira, aconteceu. Eu estava no lugar certo, fazendo o que era preciso e possível. Quase como se eu também tivesse sido um instrumento do meu tempo. Na verdade, um canal. Algumas vezes me senti assim. E não havia, necessariamente, um esforço. Era natural em mim dar vazão a tanta coisa que minha experiência tinha retido. O que eu precisava era encontrar os meios para dar forma a tudo aquilo que fervilhava em mim.
Para isso foi fundamental encontrar pessoas que pudessem me ajudar e, de certo modo, me desafiar a criar também em outras linguagens. Com isso pude perceber que já não estava mais sozinha. Uma cena foi surgindo, e eu fazia parte dela.
Eu nunca desejei representar minha comunidade, mas sabia que tinha uma e que, por isso, carregava também uma grande responsabilidade. Sempre acreditei no coletivo e na força que provinha de nós. Eu nunca fiz nada sozinha. Era daí que eu tirava forças para acreditar em sonhos que sequer tinha me dado o direito de sonhar e que, ainda assim, me via realizando.
Ao longo desses dez anos, muitos artistas surgiram tendo você como referência, seja na música, na moda ou na forma de ocupar o próprio corpo. Como é perceber que aquilo que um dia parecia uma margem hoje influencia uma nova geração inteira de criadores?
A margem é o que dá contorno ao rio. É o que desenha seu curso. Eu sempre acreditei na nossa força. Na beleza do que construímos. E ver isso ganhar novos afluentes é magnífico. É continuidade. Somos essa continuação, um sonho encarnado.
Seu corpo sempre foi uma linguagem artística. Depois de tudo o que viveu nesses últimos anos, mudou a forma como você se relaciona com ele, com o palco e até com a própria Lina fora da artista?

Completamente. Acho muito curioso que seja possível acompanhar minha transição pelos meus filmes, videoclipes e mesmo pelas entrevistas de que participei. E meu pensamento também se transformou ao longo desse caminho.
Participei de um dos maiores reality shows do Brasil e, com isso, minha própria noção de intimidade também precisou se refazer. Sempre acreditei no corpo como um campo político, mas hoje essa fronteira tão instável entre o trabalho e a vida, entre o íntimo e o público, tem me convocado a rever meus próprios limites, a negociá-los e, muitas vezes, a reinventá-los.
Como diz a canção: “nem tudo que vende vem de mim ou vem de nós; e desata nós”. Sinto que amadurecer fez com que eu tratasse meu corpo com mais cuidado e responsabilidade. Me ensinou a não me abandonar, a buscar trabalhar de uma maneira mais confortável e também a valorizar minhas relações nas suas devidas proporções e dinâmicas.
Isso pode soar contraditório, já que pouco antes falei de como minha vida e minha obra se fundem. Mas fazer esse movimento tem sido um dos meus maiores aprendizados. É isso que também me permite descansar e trabalhar para, então, criar com mais potência e vigor.
Saber onde começa a Linn e onde termina a Lina é uma tarefa muito difícil, porque elas têm muitos pontos de encontro e se atravessam o tempo todo. Mas é muito importante para mim compreender onde a vida e o palco se tangenciam e onde se afastam. Para que eu possa ficar em paz com todas aquelas que me habitam.
De onde vêm suas ideias hoje? Elas nascem mais da observação, das conversas, da leitura ou do próprio corpo?
Minhas ideias surgem da observação daquilo que vivi, do desejo daquilo que ainda quero viver e impulsionar no mundo. Vêm também das minhas relações e, principalmente, do espanto. Provêm da escuta. De ser ouvida. Ou, vida.
Atualmente estou trabalhando na montagem de uma peça teatral para conseguir dar nome e elaborar o que vivi nesses últimos anos. Conseguir falar sobre um período psiquicamente conturbado, um momento muito delicado, sem espetacularizar a dor. Tem sido um processo muito instigante.
Tenho trabalhado sem pressa, com pessoas que amo e que me amam de volta. No ano que vem, quero dividir com o público dois espetáculos: a turnê de 10 anos e essa peça, que provavelmente se chamará Saxífraga, mas ainda não tenho certeza. Estou muito entusiasmada com isso.
E, no tempo entre uma coisa e outra, tenho mais uma vez me debruçado sobre a escrita. Também tenho me dedicado ao desenho. Mas isso sem a necessidade de dividir ou vender. Tem sido meu tesouro. Meu segredo.
Você costuma falar da arte como um espaço de transformação e de cura. Criar ainda funciona dessa maneira para você? E quando a criatividade parece desaparecer, o que te faz reencontrar esse caminho?
Criar ainda funciona assim para mim. E é vital me lembrar disso. A arte me salva e me resgata sempre que preciso. Até mesmo nos momentos em que me vejo mais desacreditada ou sem perspectivas, quando enfrento algum bloqueio ou uma crise criativa, é à escrita que procuro me reconectar.
É nesse diálogo espiritual que as palavras me proporcionam que encontro minha oração. Talvez seja esse o que há de mais divino e criador na minha arte.
Busco também ler, me conectar com outras artistas, fazer oficinas, estudar, me mover e, assim, sair da minha zona de conforto. Ou, na verdade, encontrar algum conforto no próprio fazer artístico. E, quando menos espero, surge ali uma faísca, um brilho, que reacende meu olhar. Às vezes, de uma forma muito mais surpreendente do que eu imaginava.
Você surgiu em um momento em que a arte era também um espaço de enfrentamento muito direto. Hoje, num tempo em que tudo precisa ser rapidamente explicado e consumido, como você acredita que a arte ainda pode provocar ruptura sem perder o mistério? Existe algo sobre a sua obra que você gostaria que o público entendesse melhor?
A arte pode ser muitas coisas, mas não sei se ela precisa ser explicada ou mesmo compreendida. Ela escapa. Há muitas artistas que admiro justamente pela capacidade de, ao mesmo tempo em que negociam com o mercado, elaborar suas próprias rotas de fuga.
Quando pensamos que, finalmente, entendemos, que vencemos a obra, quando tentam nos cristalizar, algo ali se revela Fata Morgana.
O mistério também está na capacidade, e no poder, que a arte tem de nos fazer olhar e ver algo pela primeira vez. Mesmo que já tenhamos olhado para aqueles elementos inúmeras vezes, ainda pode haver novidade. Ainda pode haver espanto. Ainda há Vera Verão.
Eu mesma não entendi minha obra. Não sei o que h’Ouve aqui. Quando ouço Pajubá, ainda hoje há segredos e mistérios que se revelam e me surpreendem. Ser pente, bifurcando minha língua, desembaraçou minha mente.
Ao longo desses dez anos, qual foi o momento mais difícil que o público não viu? E qual foi aquele instante em que você pensou: “Valeu a pena continuar”? O sucesso mudou a sua relação com o medo?
O momento mais difícil foi quando percebi que estava adoecida mental e psiquicamente. E tive de parar. Foi ali que aceitei que precisava de ajuda. Tive de confrontar todo o estrago que havia feito na minha vida e como isso também afetou aquelas que estavam comigo.
Me vi invadida, exposta e deflagrada por mim mesma, diante de todas. Talvez algo em mim buscasse justamente isso. Inconscientemente, eu sabia que precisava parar ou morreria. Algo em mim precisava, de fato, morrer. E morrer dói.
Mas foi ali também que fui muito amada. Fui cuidada. E isso me fortaleceu. O sucesso e o fracasso caminham juntos, e me pegaram pelas mãos para me convidar a olhar, mais uma vez, para minha trajetória e para mim. Sou extremamente grata pela vida. Estar diante da morte, mais uma vez, me ensinou isso. Não que seja preciso. Mas é o que posso fazer com tudo o que vivi.
Estamos no mês de agosto, quando celebramos Omolu. Orixá que nos convida a olhar para os processos de adoecimento e cura. Que esconde, sob suas palhas, as feridas que o assolam, mas que podem brilhar feito pérolas. Senhor do tempo, que brilha como o sol.
É sob essas pipocas, que abrem caminho para a vida, que me vi dançando em febre para me reerguer.
Se os primeiros dez anos foram sobre ocupar espaços, o que você espera construir nos próximos dez? E quando olharem para a sua trajetória daqui a muitos anos, o que você gostaria que permanecesse?
Espero desfrutar de tudo que venho construindo com tranquilidade e paz. Espero que a vida continue me surpreendendo positivamente. Espero criar os meios necessários para viver o inimaginável. Que eu tenha outros problemas e encontre novas soluções. Mas que, acima de tudo, eu tenha histórias lindas para contar.
Espero que os fragmentos da minha história permaneçam contando o indizível. Que o sonho transborde e alimente a alma.
Que se lembrem de não esquecer. E que eu ainda possa viver nelas, através delas, em suas memórias.
Mas, até lá, que eu possa me livrar-me de mim. Num livro. Que o fogo fátuo possa reacender tudo aquilo que morreu e se decompor em canção. Com serenidade diante do que não pode ser modificado, coragem para transformar o que seja possível e sabedoria para identificar a diferença. Com espanto e poesia.

