Por Joana Silva Arruda

Para quem a justiça trabalha, afinal? Todos nós sabemos que aqui no Brasil e em boa parte do mundo, ela tem cor, gênero, nome e classe social.
E é com esta certeza que a brilhante e renomada advogada Inez Franco (Marjorie Estiano) abre a nova série da Netflix, pedindo diante de um júri a condenação de uma mulher acusada de botar fogo na sede de uma fazenda. Logo depois, ainda no tribunal, um acontecimento muda para sempre a vida e as convicções de Inez.
Oito anos depois, movida pelo trauma que a faz perder o relacionamento, amizades e carreira. De advogada, ela passa a atuar como professora na Faculdade de Direito da USP, onde, a fim de, talvez, amenizar a culpa, decide revisar a condenação de Jonathan Ferreira dos Santos (Hypólito), preso e condenado pelo o crime de assassinato que ele afirma não ter cometido. E, para isso, ela cria um curso de extensão, onde seleciona 5 alunos: Bernardo (Felipe Ricca), Raquel (Luiza Gabus), Lima (Pedro Roza), Kim (Nicolas Lee) e Marina (Any Gabrielly). Esta última dividindo o protagonismo com Marjorie.
Inspirada em casos reais de revisão criminal e no trabalho do Innocence Project Brasil, em oito episódios, Habeas Corpus (que teve sua estreia no último dia 23 de setembro) acompanha Inez e seus alunos investigando cada detalhe do caso de Jonathan, que já cumpriu 6 anos dos 47 a que ele foi condenado. Os personagens travam uma batalha contra as falhas e conveniências do sistema de Justiça, acostumado a favorecer os mais privilegiados. A história, apesar da semelhança com a da série “How to Get Away with Murder”, aborda, de forma bem brasileira, não apenas a tensão do tribunal, mas temas como desigualdade social, racismo estrutural, traumas, ética, conflitos morais e motivação, com equilíbrio e um toque de melodrama, deixando o espectador criando teorias e ansioso por cada episódio.
Esta é a primeira série brasileira da Netflix voltada para tramas de tribunal no Brasil. Criada por Luiz Villaça, Leonardo Moreira e Donna Oliveira, Habeas Corpus tem uma produção caprichada e competente. O elenco jovem, e boa parte iniciante, mantém o espectador engajado em suas tramas individuais e relações com o grupo e a causa. A dupla, Marjorie e Any, está em uma sintonia que nos faz querer vê-las por muito mais temporadas. Até então, aguardamos a confirmação da Netflix de uma possível segunda temporada. O elenco ainda conta com os excelentes atores Vladimir Brichta como Murilo, Danton Mello como Pedro Borrmann, Natália Lage como Ana Hueda e Marisa Orth como Cristina Ogino.
Habeas Corpus nos oferece a oportunidade de refletir sobre um questionamento ainda atual, citando a própria Inez: “...Se te tomassem tudo... Você poderia acreditar e confiar na justiça?...”. Ousamos dizer que, infelizmente, depende de quem você é.
* Joana Silva Arruda, publicitária e apaixonada por cinema e tudo do audiovisual. Escreve para o Expresso 61.

