Por Joana Silva Arruda

Às margens da barragem de Araújo Lima no interior do Ceará, vivem Gugu (Yuri Gomes) um menino Queer de 11 anos que gosta de dança e futebol, e que sonha em ser tornar um jogador profissional. Sua avó Dilma (Teca Pereira), uma professora aposentada, apaixonada pela vida e pelo neto, que o cria com muito afeto e livre de amarras. Quando Dilma começa a apresentar sinais de demência, Gugu faz de tudo para esconder a doença da avó, tentando evitar que ele seja levado para morar com o pai homofóbico, Batista (Lázaro Ramos).
Esta é a premissa de Feito Pipa, filme escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para concorrer a uma vaga ao Oscar de 2027 e que teve sua estreia no Festival de Berlim em fevereiro deste ano, de onde saiu premiado com Urso de Cristal e Grande Prêmio do Júri de Melhor Filme.
Interpretado de maneira brilhante pelo ator mirim, Yuri Gomes, que faz parte do projeto social de teatro para crianças de 10 a 12 anos, e de onde foi escolhido para o filme em uma seleção que teve mais de 700 crianças. Yuri faz um Gugu que parece existir para além da tela. Cheio de vida, seguro de si, generoso e autêntico, ele tem uma presença magnética que muitas vezes ofusca até mesmo Lázaro Ramos, que interpreta seu pai.
Feito Pipa é um uma história de amor e afeto de um neto por sua avó, e da avó por seu neto. E é aí que a sintonia entre Yuri e Teca, é um dos grandes trunfos do filme. Há entre os dois uma conexão tão genuína que a relação parece ultrapassar a própria atuação. Uma simbiose construída nos gestos, nos olhares e na intimidade de quem compartilha uma vida. É impossível não se encantar com essa relação, que se torna ainda mais comovente diante da possibilidade de separação.

Gugu é um personagem que merece ser celebrado. Seguro de quem é, não se limita a rótulos e tampouco se deixa definir pelo preconceito alheio. O pai, por sua vez, também contraria os estereótipos masculinos: não gosta de futebol e, ao contrário do que se espera, ama cozinhar. Ainda assim, não consegue aceitar plenamente o filho como ele é. Gugu parece não carregar o peso das expectativas sociais. Ele gosta de futebol, gosta de dança e vive essas paixões sem precisar justificar suas escolhas. É uma liberdade que contrasta com as limitações do pai e que torna os conflitos entre os dois ainda mais interessantes.
A fotografia também merece destaque. A paisagem nordestina, seca e árida, ganha uma beleza particular. A casa de Dilma surge como um espaço colorido, vivo e repleto de memórias. É nos detalhes dessa casa que o filme revela parte da história da mãe de Gugu e do afeto que existia entre os três. O cenário deixa de ser apenas um espaço físico e passa a carregar a memória de uma família, tornando-se parte essencial da narrativa.
O único ponto baixo do filme, ironicamente, é sua duração. Feito Pipa termina deixando aquela vontade de quero mais. Não porque seja incompleto, mas porque o encanto que Gugu, sua avó e até mesmo seu pai despertam em nós é tão grande que simplesmente não queremos parar de assistir. Queremos continuar acompanhando suas vidas, permanecer um pouco mais naquele universo e, sobretudo, continuar na companhia de Gugu.

Feito Pipa, é um filme de uma história intima e aparentemente simples, mas cheia de alma que pulsa vida e amor. E, embora sua indicação ao Oscar no momento pareça um sonho distante, não deixa de ser uma possibilidade que merece ser celebrada. Por aqui já estamos na torcida!
Feito Pipa (Brasil /2026)
Estreia nos cinemas brasileiros: 05 de novembro de 2026
Direção: Allan Deberton
Roteiro: André Araújo
Elenco: Yuri Gomes, Lázaro Ramos, Teca Pereira, Carlos Francisco e Georgina Castro
Duração: 93 min.
* Joana Silva Arruda, colunista do Expresso 61, é publicitária apaixonada por cinema e escreve semanalmente sobre áudiovisual.

