Por Laura Roson, do Jornal da USP
Como seria um planeta cujas condições climáticas passassem a favorecer apenas os seres não humanos? Quais seriam os impactos para a biodiversidade caso os recursos naturais se esgotassem e o antropocentrismo continuasse a moldar a relação da humanidade com o ambiente? Perguntas como essas são despertadas pela exposição Tnedirtes, da artista plástica Sara Matos, em cartaz no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. A mostra reproduz um ambiente distópico que simula o planeta Terra no ano de 3029.
De acordo com a artista, Tnedirtes busca promover o debate sobre a crise climática. Contudo, Matos deixa uma ressalva: “Eu não queria levar para um lado apocalíptico. Eu só queria que a gente passasse a refletir sobre as nossas pegadas no planeta Terra e sobre qual rumo a gente está tomando”.
A exposição, que conta com a curadoria da professora Helouise Costa, do MAC, reúne ao todo quatro elementos: duas animações gráficas em 3D, uma obra sonora e 16 desenhos articulados que formam uma única imagem. Todas elas ilustram as Tnedirtes, criaturas ficcionais criadas por Matos que dão nome ao evento.
Organismos que compartilham o mesmo sistema nervoso


De acordo com a concepção de Matos, essas criaturas, descritas pela artista como “organismos que compartilham o mesmo sistema nervoso”, habitariam o planeta Terra no ano de 3029, em um ecossistema fictício no qual os seres humanos já teriam sido extintos.
Matos conta que criou as Tnedirtes em 2021, durante a graduação em Artes Visuais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante de um grupo de pesquisa que havia despertado seu interesse em programação visual, a então estudante aplicou os conhecimentos adquiridos na confecção de um trabalho para a disciplina de representação 3D. Foi assim que as Tnedirtes — pensadas inicialmente como um projeto literário — ganharam forma visual e sonora.
O nome atribuído às criaturas não possui origem etimológica. Segundo Matos, a escolha foi intencional. “A ideia era justamente que fosse um nome totalmente desconhecido, tanto em português quanto em outros idiomas”, afirma.
As obras
As quatro obras apresentadas na mostra são representações das Tnedirtes. A principal delas, Corpo Coletivo, é composta de 16 desenhos que, reunidos, formam um único organismo. Embora ocupe uma parede inteira, do chão ao teto, a obra permanece em constante expansão. Segundo Matos, sua proposta não está associada a uma versão definitiva ou finalizada. “A ideia é ter essa ambição de crescer junto a elas cada vez mais”, explica.
Já Vida Adulta, uma das animações gráficas em 3D da mostra, apresenta uma criatura formada por múltiplos tentáculos que se movimentam de maneira frenética e desordenada. Habitat, a obra sonora, mescla 16 áudios e, de acordo com Matos, ajuda a ambientar o visitante ao clima distópico da exposição.


Apesar de tratar do esgotamento dos recursos naturais e da extinção da espécie humana, Matos vê na exposição uma forma de discutir a crise climática e as propostas para enfrentá-la. “Como artista, não quero levar a discussão para um lado pessimista, mas sim debater como a gente pode reverter esse cenário. Ainda há tempo para revertermos isso”, diz.
A exposição é a terceira e última mostra contemplada pelo 3º Edital de Exposições Temporárias 2024/2025 do MAC. Ao todo, 180 projetos foram inscritos nesse edital, dos quais três foram selecionados pela comissão organizadora. Voltado a artistas em início de trajetória que ainda não realizaram exposições individuais, o edital integra as ações do MAC de incentivo à produção artística emergente.
As duas outras exposições contempladas pelo edital foram Tudo que Nasce Vermelho, de Luara Macari Nogueira, e Assim Como Rafael, O Que Fiz é Furto Qualificado, de João Guilherme Parisi.


A exposição Tnedirtes fica em cartaz até 1º de novembro, de terça-feira a domingo, das 10h às 21h, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP (Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, Ibirapuera, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações estão disponíveis no site do MAC.

