Por Joana Silva Arruda, colunista do Expresso 61

Em novembro de 2020, Daniel Kraus viu um vídeo viral de caiaques quase sendo engolidos por uma baleia-jubarte. Logo depois, em 2021, aconteceu o caso de Michael Packard, um mergulhador e caçador de lagostas que sobreviveu após ser abocanhado por uma baleia-corcunda e ficar preso por 40 segundos até ser cuspido por ela.
Link do vídeo viral. Assista aqui:
Link da matéria da CNN contando o caso de Micheal Packard.
Ser engolido por uma baleia
Obcecado pelo o assunto, e se perguntando se seria possível ser engolido por uma baleia. Kraus fez pesquisas, falou com biólogos marinhos e descobriu que a maioria das baleias possuem garganta estreita, porém as cachalotes caçam e são capazes de engolir lulas gigantes. E foi daí que Kraus teve a ideia para o livro Whalefall (ainda inédito no Brasil) que dá origem ao filme “Dentro da Baleia”.

No livro e no filme, o jovem Jay Gardner (Austin Abrams) volta, pela primeira vez depois que ingressou na faculdade, para sua casa na cidade costeira central da Califórnia, um ano após a morte do seu pai, Mitt Gardner (Josh Brolin), que, com câncer terminal de pulmão, escolhe terminar com sua vida nas águas do mar. Jay e Mitt tinham um relacionamento difícil e cheios de conflitos. Por conta disso, o jovem se recusa a visitar o pai nos meses anteriores à sua morte. Consumido pela culpa de não vê-lo antes de morrer, Jay decide mergulhar na parte mais profunda do litoral da costa para tentar recuperar os restos mortais do pai.
Acontece que a praia está sob alerta e proibição de mergulho devido ao aparecimento de animais marinhos gigantes que estão caçando por lá nos últimos dias. Ignorando o alerta, Jay entra no mar e, em um certo momento, avista uma lula gigantesca vindo na sua direção, fugindo de uma cachalote. E, inevitavelmente, os dois são engolidos pela baleia.

E, a partir daí, o filme nos faz literalmente segurar a respiração. A cena da caçada, que termina com o jovem sendo engolido, é aterrorizante. Ao restringir percepção de espaço, a direção transforma a falta de referências visuais em uma ferramenta de suspense, e assim como Jay, o expectador sente o pânico e a claustrofobia. Triunfo de Brian Duffield, que assina direção e o roteiro, que também é assinado em conjunto com o autor do livro. Outro acerto é o trabalho de som. Com cada tique, cada som de dentro do organismo da baleia, assim como do oceano, conseguimos imergir junto com Jay durante toda sua experiência.
Mas o filme não é apenas um thriller de sobrevivência. A baleia representa mais do que uma ameaça física. Assim como a parábola bíblica de Jonas, ela também funciona como um espaço no qual o protagonista é obrigado a confrontar seus sentimentos de luto, medo, raiva e saudades. Relembrando as tentativas do pai de demonstrar amor e principalmente de suas lições, que, sem que ele soubesse na época, seriam essenciais para cada desafio que ele enfrentava dentro da baleia. E o ator Austin Abrams faz o seu papel muito bem, ele consegue transitar entre o drama e o suspense de forma contundente. Brolin também foi um acerto para fazer um pai carinhoso, porém abusivo nos seus gestos. Embora apareça apenas em flashbacks ao longo do filme, sua presença permanece marcante.

Dentro da Baleia, transforma a busca por sobrevivência em um confronto com as lembranças de um pai abusivo. Sugere que algumas vezes as tarefas mais assustadoras que podemos enfrentar não são necessariamente estar dentro da barriga de uma baleia, mas enfrentar aquilo que carregamos dentro de nós. É um filme marcante, que vale a pena ser visto, de preferência nos cinemas.
Dentro da Baleia (Whalefall/Estados Unidos/2026)
Estreia nos cinemas brasileiros: 15 de Outubro de 2026
Direção: Brian Duffield
Roteiro: Brian Duffield, Daniel Kraus
Elenco: Austin Abrams, Josh Brolin, Elisabeth Shue, Jane Levy, Emily Rudd, John Ortiz
Duração: 106 min.
* Joana Silva Arruda é publicitária, apaixonada por cinema e escreve sobre áudiovisual para o Expresso 61.

