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Como o livro Garotos Selvagens moldou o Rock e o Punk

A obra de William Burroughs influenciou de David Bowie a Duran Duran24/09/2026

Como o livro Garotos Selvagens moldou o Rock e o Punk
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Do Dark Side

Publicada pela primeira vez em 1971, Garotos Selvagens é uma das obras seminais de William Burroughs, um dos autores que, ao lado de Jack Kerouac e Allen Ginsberg, ajudou a dar forma a Geração Beat. Com uma linguagem desconcertante e ousada, o livro apresenta uma realidade distópica onde extremistas ensandecidos mobilizam perigosas forças sociais. Aqui, acompanhamos um grupo de jovens homossexuais, livres e audaciosos, que confrontam o poder estatal por meio de uma rebelião visceral e transgressora, lutando para sobreviver e preservar o direito de serem indomáveis, visionários e transformadores. 

Ao desafiar o convencional, Garotos Selvagens teve um imenso impacto cultural, especialmente no mundo da música. Não é para menos. Burroughs, por exemplo conheceu e colaborou com músicos como Frank Zappa, Patti Smith e Mick Jagger, morou no apartamento de Ringo Starr em Londres e conviveu com David Bowie e Kurt Cobain, sem contar nos diversos outros nomes lendários que foram influenciados pelo autor e por suas obras. Foi assim, por meio de fãs fervorosos, que Garotos Selvagens se infiltrou no rock e no punk, criando um molde do que era ser um artista transgressor. 

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Item obrigatório para os apaixonados por música, Garotos Selvagens chegou de forma inédita no Brasil pela DarkSide® Books. Embora seja quase impossível mapear toda a influência de Burroughs na cultura contemporânea, a Caveira preparou uma mini linha do tempo para você compreender como o livro influenciou o rock e mudou para sempre a música como conhecemos. 

David Bowie e seu alter ego alienígena

Um ano depois do lançamento de Garotos Selvagens, a cultura pop foi apresentada ao icônico Ziggy Stardust, um astro do rock alienígena e andrógino que veio à Terra antes de um desastre apocalíptico para entregar uma mensagem de esperança. O personagem era o alter ego do cantor britânico David Bowie, aparecendo em seu álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars e sendo imortalizado nos palcos durante 1972 e 1973. Com seu estilo exuberante e visual memorável, Ziggy Stardust se transformou em uma figura essencial do glam rock e ajudou a impulsionar Bowie ao estrelato internacional, mudando para sempre a sua carreira. 

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O grande ponto é que David Bowie era um grande fã de William Burroughs, chegando a entrevistar o escritor para a revista Rolling Stone em 1974. Ele também se inspirou na aparência e atitude dos jovens rebeldes de Garotos Selvagens para construir a persona de Ziggy Stardust. Segundo Bowie, tanto a obra de Burroughs quanto Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, foram essenciais para a criação do astro do rock alienígena e de sua banda de apoio, os Spiders from Mars, ajudando a dar sua forma e aparência: “ambos eram trabalhos poderosos […] me aprofundei nisso imediatamente. Interpretei cada detalhe. Tudo tinha que ser infinitamente simbólico”. 

Além disso, Burroughs também influenciou Bowie por meio de suas técnicas de cut-up, as quais foram amplamente utilizadas pelo artista para a composição de letras. O método consistia em recortar palavras ou frases de um texto e reorganizar seus fragmentos para produzir associações inesperadas, transformando a narrativa convencional em um campo de experimentação e ousadia. Bowie chamava a técnica, criada por Burroughs, de “uma forma de Tarô ocidental”, a utilizando até seu último álbum, Blackstar, lançado dois dias antes de seu falecimento em 2016.   

O álbum de estreia de Patti Smith 

Em 1975, chegou a hora do mundo conhecer a cantora Patti Smith, que descrevia a obra de William Burroughs como “a nova bíblia”. Extremamente próxima do autor de Garotos Selvagens, com quem havia estabelecido uma relação quase paternal, Smith tornou-se uma figura influente no movimento do punk rock de Nova York. 

Leitora e admiradora de Burroughs, a cantora incorporou em sua produção musical a ideia de literatura como performance, trazendo um lado feminista e intelectual ao aproxima r poesia, música e provocação artística. Seu disco de estreia, Horses, não apenas ajudou a definir a estética e atitude do movimento punk, misturando poesia crua e rock and roll, como também fez uma referência direta a Garotos Selvagens. Em sua faixa de abertura, Land, Smith apresenta uma narrativa elaborada sobre um personagem chamado Johnny, o qual era uma alusão ao protagonista de Garotos Selvagens. 

The Velvet Underground e a celebração da contracultura

De maneira mais indireta, a banda estadunidense The Velvet Underground também teve sua trajetória impactada por William Burroughs e suas obras, inclusive Garotos Selvagens. Lou Reed, o guitarrista e vocalista da banda, não apenas era formado em Literatura Inglesa, como também era um grande admirador do trabalho de Burroughs, de forma que a canção Lonesome Cowboy Bill, lançada no álbum Loaded, foi escrita como uma homenagem ao escritor.

Para aqueles que circulavam nos ambientes da literatura beat, da arte experimental e do cinema underground, Burroughs ajudou a legitimar a ideia de que aquilo que era marginal ou socialmente proibido poderia sim ser transformado em matéria-prima para a arte, algo que foi fundamental para o rock alternativo. Extremamente controversos, os romances do escritor, não foram grandes sucessos comerciais, mas expandiram os limites daquilo que poderia ser dito e escrito na arte, abrindo inúmeras possibilidades para diversos artistas, como os próprios integrantes do The Velvet Underground. 

Joy Division, The Soft Boys e o pós-punk

Chegando no pós-punk, a influência de Garotos Selvagens continuou mais presente do que nunca. A banda inglesa The Soft Boys, formada por Robyn Hitchcock em 1976, tirou seu nome de uma combinação entre dois romances de Burroughs: The Wild Boys e The Soft Machine, publicado em 1961. 

Enquanto isso, o vocalista do Joy Division, Ian Curtis, citou Garotos Selvagens como um de seus livros favoritos de todos os tempos. Além disso, a banda homenageou Burroughs na canção Interzone, que aparece no álbum Unknown Pleasures de 1979 e faz referência à terra mítica e distorcida que aparece no controverso romance do autor, Naked Lunch.  

O sucesso de Duran Duran

Em 1984, uma banda inusitada encontrou inspiração no mundo de Garotos Selvagens: a britânica Duran Duran. Tudo começou quando Russell Mulcahy, diretor de videoclipes da banda, anunciou que gostaria de adaptar o romance para as telonas. Ele sugeriu então que o grupo criasse uma trilha sonora moderna para o filme, combinando o estilo futurista e agressivo com os jovens guerrilheiros da história. Assim, o vocalista, Simon Le Bon, começou a escrever músicas inspiradas no universo do livro. O resultado final foi a faixa The Wild Boys, lançada como um single em 1984, o qual se tornou um dos maiores sucessos da banda. 

O videoclipe, dirigido por Mulcahy, trazia os membros da banda em um universo distópico e perigoso, sendo concebido como uma espécie de teaser para o longa-metragem. O objetivo era mostrar aos estúdios a visão que o diretor tinha para essa adaptação, que acabou nunca sendo realizada. Por outro lado, The Wild Boys foi eleito o vídeo britânico do ano no Brit Awards de 1985 e continua sendo uma das obras mais famosas do Duran Duran. 

A parceria genial com Kurt Cobain

O impacto de Garotos Selvagens chegou também ao rock alternativo dos anos 90. O vocalista do Nirvana, Kurt Cobain, era um grande admirador de Burroughs, afirmando que: “[Burroughs] me ensinou muitas coisas através de seus livros e entrevistas, pelas quais eu sou muito grato”. Logo no início da década, em 1992, os dois colaboraram na faixa The Priest They Called Him, na qual cada um gravou sua parte separadamente a quilômetros de distância. Enquanto Burroughs lê impassivelmente o conto The Junky’s Christmas, Cobain acompanha com sons livres produzidos em sua guitarra distorcida e baseados em “Silent Night” e “The Star-Spangled Banner”. 

Em 1993, o single foi lançado, coroando o encontro entre a geração beat e a geração grunge, ao mesmo tempo em que mostrava como Burroughs e sua escrita ainda continuavam como uma ponte entre a literatura underground e a música. Naquele ano, Kurt Cobain chegou a visitar o autor de Garotos Selvagens em sua casa no estado de Kansas e posteriormente escreveu perguntando se ele toparia aparecer no vídeo Heart Shaped Box do Nirvana. Infelizmente, Burroughs recusou o convite. 

Uma obra transgressora que moldou o submundo da cultura pop

Ao desafiar o convencional, Garotos Selvagens e William Burroughs inspiraram inúmeros artistas a fazerem o mesmo. O livro, que chegou no Brasil pela DarkSide Books, ajudou a consolidar um imaginário de juventude rebelde, sexualidade não normativa, violência e resistência contra sistemas de controle que foi constantemente reclamado e recriado por diferentes músicos. Com sua linguagem transgressora, a obra forneceu uma das linguagens mais eficazes para aqueles artistas que desejavam experimentar, criar algo novo, desafiar a autoridade e romper com as normas da sociedade. 

Garotos Selvagens

De David Bowie a Duran Duran, Os Garotos Selvagens criou uma linguagem que foi capaz de encontrar ecos em diferentes formas de arte, provando que uma obra literária não precisava respeitar fronteiras nem ser adaptada literalmente para deixar sua marca na cultura pop. Foi assim que Burroughs mostrou que algumas histórias não querem ser domesticadas. Elas querem correr livre, invadir a cultura como um furacão, fazer muito barulho e, principalmente, incomodar. 

Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

Editoria Cultura

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