A covardia política de uma entidade que flerta com o fascismo do qual foi vítima há quase cinco décadas
Por João Orozimbo Negrão
Foi agorinha, duas semanas atrás, que fez 46 anos que uma carta-bomba estourou na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio de Janeiro, matando a secretária Lyda Monteiro da Silva. Eu me lembro muito bem. Estávamos todos muito assustados naqueles idos da inauguração da década de 80. Afinal, eu era um dos aguerridos “tribuneiros”, militantes do então ainda clandestino Partido Comunista do Brasil (PC do B) que recebiam, distribuíam, vendiam e faziam agitação e propaganda das manchetes do “jornal de massas” do partido nas avenidas, feiras de bairros, escolas e faculdades em Goiânia (GO).
Naquele mesmo dia outra carta-bomba explodiu na Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente no gabinete do vereador Antônio Carlos de Carvalho (do então PMDB), ferindo gravemente o assessor José Ribamar de Freitas, que perdeu as mãos e teve parte dos braços mutilados. Mas o terror naquele 27 de agosto, uma quarta-feira, viria a estraçalhar o dia modorrento também na sucursal do jornal Tribuna da Luta Operária com a explosão de um terceiro artefato na redação carioca da publicação do PC do B.
Eu me lembro muito bem daquele dia em que cheguei à sala na avenida Olinda para os preparativos finais da inauguração da subsede da TLO no Jardim Novo Mundo, o bairro proletário onde eu morava em Goiânia e atuava na clandestinidade. Mobilizações feitas, presenças confirmadas de muitas lideranças, mas de última hora muita gente com medo disse que não ia mais, inclusive os membros da batucada “Mé Samba”, grupo musical que reunia amigos do bairro, no qual eu tocava tamborim.
O medo se amplificou, mas mantivemos a inauguração e a sede jornal TLO serviu por um bom tempo como conexão das lutas do bairro, para venda do jornal e materiais do partido e livros de autores revolucionários e, claro, como o “aparelho” da nossa célula no Novo Mundo e as lutas que empreendíamos em toda zona Leste de Goiânia.

Àquela altura, a OAB era a nossa heroína na luta contra a ditadura, assim como a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e outras entidades que no plano nacional davam respaldo à luta contra a ditadura, com destaque para a UNE (União Nacional dos Estudantes), reorganizada um ano antes, em 1979, depois de ser destroçada pela ditadura militar em seus primeiros anos de implantação em 1964.
Contudo, 30 anos depois daqueles históricos anos de luta, a OAB se mostrou covarde diante do golpe sendo engendrado contra a presidente Dilma Rousseff. Nos anos seguintes viria a ter papel vergonhoso, ora flertando sempre que lhe era permitido com o bolsonarismo, ora tentando ser defensora da democracia.
E agora, 46 anos depois, a OAB cumpre novo papel vergonhoso, embalada pela banda udenista da mídia corporativista e pelos partidos da ultradireita e seus representantes fascistas. A questão aqui não é a OAB apresentar pedido de quem quer que seja para ser alvo de impeachment. E nem tentar se parecer neutra pedido investigação de irregularidades de outros membros da Suprema Corte. O ponto é que a OAB se assume covarde em um momento de extremo avanço do fascismo como a entidade braço-auxiliar dele.
A afoiteza da OAB a conduz para os braços do fascismo em um momento político-eleitoral crucial para a vida nacional. Ela, que poderia ser um ponto de equilíbrio neste momento perigoso para a nossa democracia, faz coro com o que há de pior em todo o espectro da política, do empresariado e das futilidades nacionais. Pobre Ordem dos Advogados do Brasil. Não tem coragem. Se torna fútil.
E é uma pobreza de espírito coletiva da entidade, cujo reflexo é da pobreza de espírito individual, de seus atuais dirigentes. E pobres daquele espírito democrático que nos ajudou a combater e derrotar a ditadura. Pobres da nobreza de uma profissão importante para a democracia, para o estado democrático de direito.
Infelizmente, pelo meu estado de espirito atual, tudo isso me faz recordar daquela célebre frase de Vladimir Lênin: “Advogados?! Nem do partido!”. Ou seja, não dá para confiar nesses caras. E olhe que ele, o grande líder da Revolução Soviética, era advogado.
* João Orozimbo Negrão é jornalista em Brasília, já tentou ser advogado, não foi competente e fugiu da faculdade.

