Por Paulo Lemos
Nas últimas décadas, os Estados Unidos se apresentaram ao mundo como guardiões da liberdade, da democracia, da paz, do combate ao terrorismo, às drogas e à corrupção.
Mas quando olhamos para os dados e para os mortos que ficaram pelo caminho, a narrativa moral se desfaz, e aparece algo mais duro: um projeto de poder que custou centenas de milhares – talvez milhões – de vidas, especialmente fora de suas fronteiras.
Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a chamada “Guerra ao Terror” autorizou invasões, ocupações e operações militares em pelo menos cinco países centrais: Afeganistão, Iraque, Síria, Iêmen e Paquistão.
O projeto Costs of War, da Universidade Brown, estima que mais de 940 mil pessoas foram mortas diretamente pela violência dessas guerras entre 2001 e 2023, sendo mais de 432 mil civis.
Isso sem contar os milhões de deslocados, feridos e os que morreram indiretamente por destruição de hospitais, saneamento, economia e infraestrutura básica.
O custo financeiro direto dessa “guerra global ao terror” é calculado em cerca de 8 trilhões de dólares. A indústria bélica, é claro, não saiu perdendo.
No Iraque, apenas para ter uma dimensão, estimativas consolidadas apontam entre 268 mil e 295 mil mortos na guerra entre 2003 e 2018, dos quais mais de 180 mil seriam civis, segundo o próprio Costs of War.
Outros estudos, usando metodologias de “excesso de mortalidade”, apontam números ainda mais altos, chegando a centenas de milhares adicionais. Sob o rótulo de “libertar o Iraque” e “combater o terror”, destruiu-se um país, alimentou-se o terrorismo que se dizia combater e abriu-se espaço para novas formas de fundamentalismo.
Enquanto isso, no plano interno, os EUA seguem como um dos epicentros mundiais do consumo de drogas.
Dados recentes indicam que 16,8% dos norte-americanos com 12 anos ou mais usaram drogas no último mês, e cerca de 24,9% usaram drogas ilícitas ou fizeram uso não médico de prescrições no último ano.
Apesar disso, a “Guerra às Drogas” foi dirigida muito menos contra o consumo doméstico e muito mais contra determinados corpos: pobres, negros e imigrantes.
O país ainda tem uma das maiores taxas de encarceramento do planeta.
Cerca de 1,9 milhão de pessoas estão presas, e a taxa chega a mais de 500 presos por 100 mil habitantes – várias vezes a média de países com renda semelhante. Estudos mostram que os EUA têm menos de 5% da população mundial, mas quase 25% dos presos do mundo.
A “Guerra às Drogas” é peça-chave desse quadro: mais de 360 mil pessoas seguem encarceradas por delitos de drogas, e a cada ano ainda são feitas quase 1 milhão de prisões por infrações relacionadas a entorpecentes.
Entre imigrantes, o punitivismo é ainda mais evidente.
Quase 1 em cada 5 deportações de pessoas com condenação criminal, entre 2013 e 2020, ocorreu por delitos relacionados a drogas.
Ao mesmo tempo em que o mercado interno norte-americano segue como um dos mais lucrativos para o tráfico global, imigrantes são usados como bode expiatório da “Guerra ao Narcotráfico”, presos e expulsos em massa.
Racismo estrutural atravessa todo esse sistema.
Organizações como The Sentencing Project mostram que a taxa de encarceramento de pessoas negras pode ser cinco vezes maior do que a de brancos em vários estados,
enquanto leis como o Anti-Drug Abuse Act de 1986 criaram uma disparidade de 100 para 1 entre penas para crack (mais consumido em comunidades negras) e cocaína em pó (associada a usuários brancos de maior renda).
A “guerra” nunca foi neutra: ela tem cor, classe e nacionalidade-alvo.
Se ampliamos o foco para a América Latina, o discurso de “defesa da democracia” e “combate à corrupção” veio muitas vezes acompanhado de apoio explícito ou tácito a golpes de Estado e ditaduras.
Pesquisas históricas mostram o envolvimento dos EUA em mudanças de regime em diversos países latino-americanos, com apoio a golpes que derrubaram governos eleitos e instalaram juntas militares ou regimes autoritários.
No Cone Sul, a Operação Condor – coordenação repressiva entre as ditaduras de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia – contou com respaldo político, logístico e de inteligência norte-americano. Estimam-se entre 60 mil e 80 mil opositores mortos e mais de 400 mil presos políticos nesse período.
Sob o argumento de conter o “perigo comunista” e a “corrupção subversiva”, o que se praticou foi sequestro, tortura, desaparecimento forçado e censura sistemática.
Talvez o exemplo mais extremo da distância entre o discurso e a prática esteja nas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945.
Quando a guerra no Pacífico já caminhava para o fim, os Estados Unidos decidiram testar, em população civil, a arma mais devastadora já criada.
Até o final de 1945, estima-se que cerca de 140 mil pessoas tenham morrido em Hiroshima e 74 mil em Nagasaki, principalmente civis.
Ao longo das décadas seguintes, centenas de milhares de sobreviventes ainda sofreram com cânceres, leucemias e outras sequelas da radiação.
O gesto foi embalado como “necessário para abreviar a guerra” e “salvar vidas americanas”, mas até hoje historiadores discutem se se tratou de necessidade militar ou demonstração de poder geopolítico em escala nuclear.
Colocados lado a lado, esses números expõem um padrão: discursos elevados – guerra ao terror, às drogas, à corrupção, defesa da liberdade, busca pela paz – servem de verniz para políticas que produzem morte em massa, encarceramento em larga escala, golpes de Estado e traumas históricos profundos em outros povos.
O custo humano, quase sempre, recai sobre civis pobres, racializados e moradores da periferia do sistema mundial.
Isso não significa cair em antiamericanismo simplista, nem negar a complexidade da política interna dos EUA ou os conflitos reais que existem no mundo.
Significa, sim, recusar a ingenuidade.
Quando um governo se apresenta como “polícia do planeta”, é preciso perguntar: quem escreveu essa narrativa?
Quem lucra com os contratos militares, com as privatizações pós-golpe, com as prisões superlotadas e com a economia do medo?
E quem aparece apenas nas estatísticas de mortos, presos e deportados?
Num mundo saturado de propaganda, o gesto mais elementar de responsabilidade política é duvidar do roteiro pronto.
Não se trata de acreditar automaticamente no lado oposto, mas de recuperar a capacidade de olhar para os fatos, para as estatísticas, para a história concreta – e não apenas para o discurso.
A partir daí, talvez possamos construir outras narrativas: menos armadas, menos punitivas, menos hipócritas.
Narrativas em que “paz”, “democracia” e “combate à corrupção” não sejam desculpa para devastar vidas, mas compromissos reais com dignidade humana, dentro e fora das fronteiras de qualquer império.
* Paulo Lemos é advogado em Cuiabá e Mato Grosso e articulista de opinião.
