Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito

A Universidade Social: desafios e avanços. Cicília Raquel Maia Leite. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha; Mossoró: Editora UERN. 2025, 152 p.

 

 

 

Sobre o livro, dizem os editores, a obra reúne artigos e discursos que expressam o pensamento e a atuação pública da professora Cicília Maia. Dividido em duas partes, o primeiro conjunto reúne artigos publicados como colunista do jornal O POVO (Fortaleza), abordando temas contemporâneos com profundidade e clareza. O segundo grupo apresenta discursos e falas institucionais proferidas em eventos marcantes, revelando o compromisso da autora com a educação pública, a gestão democrática e a valorização da universidade como espaço de transformação social. A obra é um registro potente da voz de uma mulher que ocupa lugar de liderança com coragem, afeto e visão estratégica.

A edição reúne artigos e discursos que expõem o pensamento e a trajetória pública da autora, reitora da UERN (Universidade Estadual do Rio Grande do Norte) e presidente da ABRUEM (Associação Brasileira dos Reitores – e Reitoras – das Universidades Estaduais e Municipais), marcada por coragem, afeto e visão estratégica. Entre reflexões sobre gestão, cidadania e o futuro da educação, Cicília reafirma a universidade como espaço de mudança e esperança coletiva.

São contribuições, destaca o professor Francisco do O’ de Lima Júnior, da Universidade Regional do Cariri (URCA), no prefácio, que “acompanham momentos da história recente do Brasil e do mundo desde a posse da Profa Cicília Maia como Reitora da UERN, juntamente com o Prof. Francisco Dantas de Medeiros Neto, seu vice-reitor. Num diálogo leve com a leitora e com o leitor, a importância da UERN para o povo potiguar e para o Nordeste é evidenciada em cada celebração de seus aniversários, em diversos programas e ações desta IES destacando-se aqueles que a fortalecem como ‘Universidade Popular’. Enxergamos em cada construção textual a nítida motivação histórica da UERN conforme a descrição de sua heráldica brasonada: uma Universidade que se reitera pela liberdade (lema Liber vi Spiritus) e evoca a emancipação da mulher (nas cores azul e prata), das distintas etnias principalmente o povo negro (aves negras em voo) sob a naturalidade orgânica do Ensino, da Pesquisa e da Extensão (três tochas)”.

Enquanto descreve a heráldica brasonada, me dou conta da proximidade cromática da criação artística da capa e das ilustrações do livro, disse-me a professora Cícilia, a cargo de Andréa Araújo, da Fundação Editora Demócrito Rocha. E não pude deixar de associá-la, à pintura que orna o gabinete da Reitora, um óleo sobre tela do artista plástico mossoroense Isaias Medeiros, um quadro de 2020, do catálogo do artista: Celina Guimarães e o pioneirismo do voto feminino, que a professora reitora interpretou com vivacidade enquanto arte e tema.

O autor do prefácio cuida de expor a distribuição dos grupos de textos que formam o livro e que, segundo ele, apreendem “processos relevantes e desafios estruturais, dentre eles a preocupação com as desigualdades educacionais e a necessidade de superação do analfabetismo, a exponenciação de confrontos entre ética e a produção de conhecimento e de informação face à emergência e predomínio das tecnologias de informação (TIs), o otimismo e expectativa renovados em momentos de retomada de pactos políticos por importantes ações e programas, principalmente pela Educação Superior, a cultura da paz como contexto histórico em meio a um mundo turbulento. Na centralidade destas reflexões, o papel da Universidade pública é patenteado como requisito pela Profa. Cicília”.

O livro de Cicília Raquel Maia Leite – Reitora da UERN, com efeito, segundo minha própria leitura, é uma coletânea de textos que expressam o pensamento e a atuação pública da professora Cicília Maia. Dividido em duas partes, o primeiro conjunto reúne artigos publicados como colunista do jornal O POVO, abordando temas contemporâneos com profundidade e clareza. O segundo grupo apresenta discursos e falas institucionais proferidas em eventos marcantes, revelando o compromisso da autora com a educação pública, a gestão democrática e a valorização da universidade como espaço de transformação social. A obra é um registro potente da voz de uma mulher que ocupa lugar de liderança com coragem, afeto e visão estratégica.

Analisando a espinha dorsal da obra  – “A Universidade Social: Desafios e Avanços” -, pode-se dizer que ela compila uma diversidade de gêneros textuais — do rigor do artigo acadêmico à passionalidade do discurso de posse —, convergindo para um ponto de articulação único. A redefinição do “público” na educação superior brasileira. Para Cicília Maia, a universidade não é meramente uma prestadora de serviços educacionais, mas um projeto de civilidade e justiça social que encontra sua razão de ser na alteridade e na presença territorial.

O ponto de articulação desses textos reside na simbiose entre gestão e humanismo. A autora não separa o ato administrativo da finalidade social; cada portaria assinada, cada orçamento defendido e cada curso interiorizado são apresentados como peças de um mosaico maior que visa a democratização do saber. A “Universidade Social” proposta pela reitora articula-se em torno da ideia de que o conhecimento só é legítimo quando ele transborda os muros institucionais e altera, de forma concreta, a realidade das comunidades que o sustentam. É uma visão que rompe com a neutralidade científica desengajada para abraçar um conhecimento, incluindo o científico, comprometido com o desenvolvimento regional.

Teoricamente, o título do livro se justifica por meio de uma releitura da função social da universidade. A autora fundamenta sua tese na premissa de que a excelência acadêmica e a inclusão social são faces da mesma moeda. Não há qualidade acadêmica em um ambiente que exclui; a diversidade de vivências — sejam elas quilombolas, indígenas, de pessoas com deficiência ou da periferia urbana — é tratada não como um “apêndice” assistencialista, mas como um valor epistemológico. A teoria aqui é a da interlocução. A universidade aprende ao ensinar, e essa troca de saberes é o que a torna verdadeiramente “social”.

Politicamente, o livro funciona como um manifesto de resistência e afirmação da autonomia. A justificativa do título, sob este prisma, passa pela compreensão da UERN como um braço estratégico do Estado para a redução de desigualdades no Rio Grande do Norte. Os textos revelam uma postura política clara. A universidade pública deve ser o motor da mobilidade social. Isso se manifesta na defesa intransigente das cotas e na interiorização, que retira o privilégio do saber dos grandes centros e o distribui pelo semiárido. A política, na visão de Maia, é a ferramenta que garante que o filho do agricultor tenha o mesmo direito ao diploma de doutor que o herdeiro das elites urbanas.

Ademais, a obra aborda os desafios inerentes a essa visão. A resistência a um financiamento adequado, os ataques à autonomia universitária e o preconceito contra instituições estaduais são analisados como barreiras que a “Universidade Social” precisa superar diariamente. O título, portanto, carrega uma carga de denúncia e de anúncio. Denuncia a tentativa de transformar a educação em mercadoria e anuncio a uma universidade que é, essencialmente, patrimônio do povo.

A articulação entre os textos também passa pela perspectiva de gênero. Como mulher à frente de uma instituição de grande relevância, Cicília Maia imprime em sua escrita uma sensibilidade política que reconhece as estruturas de poder. O livro justifica seu título ao mostrar que uma universidade social é também uma universidade feminista, antirracista e democrática. A gestão descrita nos discursos e artigos é colaborativa, entendendo que a universidade social exige uma “escuta ativa” — termo recorrente na obra que simboliza o respeito ao outro como sujeito de direitos. Por isso não me surpreendi, em diálogo com Carmem Sousa, a Ouvidora da UERN, em saber que esse é o fundamento ético do órgão na UERN. Fundamento, aliás, que tenho procurado insinuar na caracterização das ouvidorias públicas como instrumento de gestão democrática das universidades (https://estadodedireito.com.br/ouvidorias-do-brasil-unidas-na-integridade-na-democracia-e-nos-direitos-humanos/).

Em suma, “A Universidade Social. Desafios e Avanços” é uma obra que justifica seu título através de uma práxis que une o rigor técnico à sensibilidade social. Ela não se limita a relatar avanços; ela estabelece uma nova gramática para a gestão universitária no século XXI. O ponto de articulação é, enfim, a esperança — não como um sentimento abstrato, mas como uma categoria política que move a instituição em direção a um futuro onde o conhecimento seja, de fato, o maior instrumento de libertação e justiça social para todos os cidadãos.

Portanto, foi natural encontrar espaço e sintonia para interlocução entre o pensamento potente e mobilizado da Autora, reitora experiente e legitimamente reconhecida, a partir de minha própria perspectiva, também tendo passado pelos desafios do exercício reitoral. São experiências bem documentadas. De minha parte, em Territórios de conhecimentos e de intersubjetividades: um lugar social para a Universidade, in Revista Humanidades. Existindo, Resistindo e Reinventando: Universidades Públicas no Brasil Atual. Brasília: Editora UnB. Nº 65, dezembro de 2021 (https://estadodedireito.com.br/revista-humanidades-existindo-resistindo-e-reinventando-universidades-publicas-no-brasil-atual/); em meu ensaio Que conhecimento é esse e como a universidade responde histórica, social e epistemologicamente ao cumprimento dessa função (Universidade para quê?, Darcy Ribeiro. Brasília: Editora UnB, 1986), que trato no meu texto que, aliás, abre o livro: Movimentos Sociais nos 50 Anos da UnB: Construindo uma Universidade Emancipatória, um pouco para prestar contas de meu reitorado na UnB entre 2008 a 2012, publicado no livro Universidade e Movimentos Sociais. Erlando da Silva Rêses (Organizador). 1ª edição. Belo Horizonte: Fino Traço, 2015; e, principalmente, no livro que organizei – Da universidade necessária à universidade emancipatória. Brasília: Editora UnB, 2012.

Vale dizer, compreender, tal como sugeri, nos textos indicados e, principalmente, no livro que organizei – Da universidade necessária à universidade emancipatória. Brasília: Editora UnB, 2012) – que a universidade não pode ser um espaço hiperreal, desconectado da sociedade, e de suas necessidades. Por isto é tão fundamental a gestão compartilhada e a inclusão social na comunidade acadêmica. A participação na administração de recursos não se reduz a uma utopia moderna, assim como as ações afirmativas não se resumem à boa vontade das elites e do Estado em reparar diferenças históricas; são antes uma expressão da necessidade de que uma universidade seja cada vez mais representativa da população civil para incorporar as suas demandas, como organização pública que é.

Assim que, a análise da obra de Cicília Raquel Maia Leite, sob a perspectiva de sua liderança na ABRUEM, revela que a “Universidade Social” não é apenas um conceito teórico, mas uma categoria política de resistência e afirmação federativa. Ao discorrer sobre a interiorização, a Autora transcende o relato de uma gestão específica para desenhar a própria fisionomia das instituições estaduais e municipais brasileiras. O ensaio que se depreende de seus textos argumenta que a interiorização é o antídoto contra o elitismo geográfico que, historicamente, concentrou o saber e o poder nos grandes centros litorâneos e nas capitais.

Nesse sentido, a interiorização é apresentada como uma reparação histórica. Para a Autora, o papel de uma universidade pública estadual é ser o “Estado presente” onde o mercado e outras esferas de poder muitas vezes não chegam. No discurso ensaístico de Cicília, o campus no interior não é uma “unidade menor”, mas o epicentro de uma transformação silenciosa que altera a demografia do sucesso profissional. Ao presidir a ABRUEM, ela projeta essa visão potiguar para o plano nacional, defendendo que a capilaridade das estaduais é o que sustenta a democracia brasileira na base, onde a vida cotidiana acontece.

A justificativa política para o título “Universidade Social” ganha contornos mais nítidos quando a Autora aborda a autonomia e o financiamento. Ela argumenta que as universidades estaduais enfrentam o desafio hercúleo de manter a excelência com orçamentos frequentemente vulneráveis às oscilações das receitas estaduais. No entanto, é precisamente essa proximidade com o “chão” regional que confere a essas instituições uma agilidade e uma pertinência social que as federais, por vezes, levam mais tempo para articular. A universidade estadual é, na visão de Cicília Maia, uma instituição de “pronta resposta” às demandas do desenvolvimento local.

Os ensaios contidos em sua obra também sublinham que a interiorização é uma ferramenta de fixação de talentos e inteligência. A Autora desconstrói a ideia de que o progresso é um caminho de mão única em direção à metrópole. Ao oferecer ensino, pesquisa e extensão de qualidade no sertão, no agreste ou no semiárido, a universidade social cria um ecossistema de inovação que retroalimenta a economia local. É uma defesa vigorosa do papel do reitor e da reitora como agentes políticos que devem, incessantemente, traduzir o valor da academia para a linguagem do desenvolvimento humano e da justiça social.

Em última análise, o ponto de articulação desses textos, sob o prisma da ABRUEM, é a afirmação de que não existe um Brasil desenvolvido sem um interior intelectualmente fortalecido. A “Universidade Social” de Cicília Raquel Maia Leite é, portanto, um convite a repensar o pacto federativo e o projeto onde o conhecimento é distribuído com a mesma capilaridade das veias de um corpo, garantindo que a vida e a oportunidade alcancem todas as extremidades do território nacional.

Foi um alento, convidado pera ministrar a Aula Magna na abertura do 1º semestre letivo de 2026, da UERN, encontrar na sua reitora a autora cujos conceitos eu já vinha ponderando, para articulá-los à minha própria reflexão. Bem que essa interlocução, ampliada com a comunidade acadêmica da UERN ficou bem registrada e pode ser compartilhada por meio de sua rede de intercomunicação. Basta ver em Reconecta Aula Magna transmitida ao vivo em 24 de fevereiro de 2026, com o tema “Educação como Direito Humano e Instrumento de Emancipação e de Referenciamento Social”, com mediação da professora Cicília Raquel Maia Leite, (https://www.youtube.com/watch?v=7F6K_LhJghE&t=78s). Ver também: https://portal.uern.br/blog/aula-magna-com-professor-jose-geraldo-reforca-o-papel-transformador-da-universidade/. E para a continuidade da interlocução: Comunidade acadêmica debate com José Geraldo a construção de uma Universidade socialmente referenciada (https://portal.uern.br/blog/comunidade-academica-debate-com-jose-geraldo-junior-a-construcao-de-uma-universidade-socialmente-referenciada/).

Foi no contexto de desafios e avanços, muito em diálogo com a professora Cicília Maia, que procurei articular o tema proposto para a aula aberta – “Educação como Direito Humano e Instrumento de Emancipação e de Referenciamento Social”. Saliento que para esse fim revisitei também minha participação na CRES+5, a Conferência Regional de Educação Superior da América Latina e Caribe, realizada em março de 2024, em Brasília, cujo tema foi “Educação Superior como Motor de Desenvolvimento Humano, Social e Econômico”.

Durante a conferência de encerramento, pude abordar as urgências e desafios políticos e epistemológicos que as universidades latino-americanas e caribenhas enfrentam atualmente. Destaquei a necessidade de compensar o papel das instituições de ensino superior diante de um contexto globalizado e em constante transformação.

No cenário atual, as universidades têm o desafio de promover uma educação inclusiva e de qualidade, que atenda às demandas de uma sociedade cada vez mais diversa e complexa, para o que é fundamental compensar a relação entre conhecimento acadêmico e práticas sociais, buscando uma maior integração e relevância das pesquisas nas universidades.

Em termos políticos, as universidades latino-americanas e caribenhas enfrentam a urgência de garantir a autonomia e a liberdade acadêmica, protegendo o pensamento crítico e garantindo a pluralidade de ideias e perspectivas, atentas a que é preciso também promover a internacionalização e a colaboração entre as instituições de ensino superior, fortalecendo redes de cooperação e intercâmbio acadêmico.

Diante desses desafios, é fundamental que as universidades sejam capazes de se reinventar e se adaptar às novas demandas da sociedade contemporânea, formas inovadoras de promover o conhecimento buscado e contribuir para o desenvolvimento sustentável e inclusivo da região.

Ainda no contexto da Aula Magna, falando em Mossoró, no espaço criativo e plural da UERN, ousei dizer que a primeira condição para  uma universidade pública e socialmente referenciada é a de se descolonizar, um processo que implica em revisar seus currículos para orientar seu futuro.

Por isso comecei a minha exposição com uma afirmação simples, mas exigente: a universidade é uma das instituições onde uma sociedade decide o que considera conhecimento legítimo, memória relevante e futuro possível. Por isso, discutir universidade é discutir projeto de sociedade.

Ao ler Achille Mbembe, especialmente em Descolonizar la universidad, somos provocados a reconhecer algo incômodo: a universidade que conhecemos, inclusive a universidade pública latino-americana, não nasceu neutra. Ela foi moldada em contextos coloniais, atravessada por hierarquias de raça, de cultura, de língua articulados segundo planta epistemológica instrumental para esse atravessamento. Ela ajudou a produzir mundos — mas também ajudou a silenciar muitos mundos.

Descolonizar a universidade, portanto, não é destruir a universidade. É levá-la a sério em sua promessa mais alta. Mbembe nos ajuda a perceber que há algo de anacrônico quando, em sociedades formalmente pós-coloniais, seguimos ensinando como universais teorias que nasceram em contextos imperiais, e seguimos tratando como “locais” ou “particulares” saberes produzidos por povos que, na verdade, falam desde experiências históricas profundas de humanidade.

Descolonizar é perguntar: Quem foi autorizado a produzir teoria? Quem foi relegado à condição de objeto de estudo? Quem é citado e quem é apenas descrito? Essas perguntas não são identitárias no sentido estreito. Elas são perguntas sobre justiça cognitiva.

No contemporâneo, a educação superior está sob a lógica de mercado. Hoje, muitas universidades são pressionadas a se comportar como empresas, competir por clientes, produzir rankings, vender serviços educacionais, transformar campi em vitrines publicitárias. Nesse cenário, o conhecimento corre o risco de perder seu valor público e ganhar apenas preço de mercado.

A crítica não é nova. Já estava presente na reflexão de Boaventura de Sousa Santos, quando propôs, em A Universidade no Século XXI, uma reforma democrática e emancipatória da universidade. Para ele, a instituição precisa deixar de ser monocultural e tornar-se pluriversal — ou, como ele diz, uma pluriversidade.

O que significa isso na prática?

Significa reconhecer que a ciência moderna é valiosa, mas não é a única forma de produzir conhecimento sobre o mundo. Significa admitir que comunidades indígenas, populações negras, movimentos sociais, saberes populares também elaboram interpretações sofisticadas da realidade. E que a universidade pública, se é realmente pública, deve dialogar com esses saberes, não apenas estudá-los a distância.

Aqui entra a ideia que considero central para esta conferência: a descolonização da universidade precisa ser contínua. Ela não é uma reforma única, feita uma vez por todas. É um movimento recorrente de autocrítica institucional. Por que? Porque as formas de colonialidade mudam.

Hoje elas aparecem em rankings globais, em métricas produtivistas, na padronização curricular internacional, na dependência de centros hegemônicos de validação científica. Se não revisamos periodicamente nossos currículos, nossas bibliografias e nossos critérios de excelência, corremos o risco de apenas atualizar a dependência.

Na América Latina, essa discussão toca nossa própria história. Darcy Ribeiro já sonhava com uma universidade capaz de responder ao destino histórico de nossos povos, e não apenas de imitar modelos do Norte global. Seu projeto de universidade era inseparável de um projeto de país.

Da mesma forma, Paulo Freire nos ensinou que educação é prática de liberdade. E liberdade não é só acesso à escola; é poder ler o mundo com categorias próprias, é poder nomear a própria experiência. Uma pedagogia descolonizada não entrega apenas conteúdos. Ela devolve voz histórica aos sujeitos. Entre todos e todas, somos nós aqui nesta região que mais nos demos conta dessa exigência, considerando que foi aqui ao lado, em Angicos, que Paulo Freire, respondeu à grande mobilização por mudanças sociais para modernizar o País, com as reformas de base, e que foi aqui no Nordeste, no Rio Grande do Norte, que muito fortemente se fez o engajamento de estudantes universitários, sindicatos e trabalhadores para essa arrancada de conscientização emancipadora por meio da educação. Nossos colegas da UFERSA documentaram muito bem esse processo (Higo Lima Passos Junior e Renata Jaguaribe), em 40 Horas de Angicos. Memórias dos Alunos de Paulo Freire no RN.

Quando trazemos essa discussão para o currículo universitário, falamos de coisas muito concretas. Falamos de quem aparece nas referências obrigatórias; falamos de quais autores são considerados “clássicos”; falamos de quais problemas são considerados dignos de pesquisa.

Se nossos currículos falam muito pouco da América Latina, da África, dos povos originários, das periferias urbanas, do local de nossas regiões que interpelam e incidem no universal, então estamos formando profissionais para compreender plenamente apenas uma parte do mundo — e frequentemente a parte dominante.

A crítica de Aníbal Quijano sobre a colonialidade do poder ajuda a entender que isso não é mero descuido acadêmico. Trata-se de um padrão histórico em que raça, trabalho e conhecimento foram organizados de modo hierárquico. Descolonizar o currículo é também desmontar essas hierarquias. Por isso Nego Bispo afirmou que mais que decoloniais devemos ser contracoloniais.

É importante dizer, descolonizar não é rejeitar a ciência, nem negar o intercâmbio internacional, nem recusar tecnologia. Não se trata de trocar um cânone por outro. Trata-se de ampliar o campo do que pode ser reconhecido como conhecimento.

É um gesto de democratização profunda. Porque democracia não é só votar; é participar da definição do que conta como verdade socialmente relevante. Quem é de Mossoró sabe bem o que isso significa.

Quando ampliamos o caráter inclusivo da universidade, não falamos apenas de políticas de acesso — que são fundamentais. Falamos de inclusão epistêmica. Falamos de estudantes que entram na universidade e encontram ali mundos que dialogam com suas próprias histórias, e não apenas mundos que os tratam como exceção.

Uma universidade referenciada socialmente é aquela que presta contas à sociedade não só por sua eficiência, mas por sua relevância humana. Ela forma profissionais, sim, mas forma também cidadãos críticos, capazes de imaginar alternativas.

E aqui retorno a Mbembe. Ele associa descolonização a uma política da vida, a uma aposta no bem-viver, na felicidade em sentido não mercantil. Não a felicidade do empreendedor de si mesmo, mas a felicidade vinculada à dignidade coletiva.

Talvez o maior risco contemporâneo seja reduzir a universidade a uma fábrica de diplomas úteis ao mercado. Se isso acontecer, perderemos justamente o espaço institucional que historicamente produziu pensamento crítico, imaginação social e alternativas civilizatórias.

Por isso, defender a universidade pública hoje é defender três coisas ao mesmo tempo: autonomia, liberdade acadêmica e pluralismo epistêmico. Sem autonomia, a universidade vira aparelho de governo ou consumo de elites, sem liberdade acadêmica, vira aparelho ideológico, sem pluralismo, vira repetidora de um único mundo possível.

Descolonizar continuamente a universidade é, no fundo, um modo de mantê-la jovem historicamente. De impedir que ela se transforme em museu de teorias mortas ou em shopping center de certificados. É recordar que ela nasceu para ser lugar de pensamento livre e de produção de futuro.

Uma universidade que não se revê tende a reproduzir o mundo tal como ele é. Uma universidade que se descoloniza ciclicamente ajuda a imaginar o mundo como ele pode ser. Mais democrático. Mais inclusivo. Mais humano.

Falar de educação como direito humano na UERN é falar de uma instituição cuja história se confunde com a própria história social emancipatória do interior do Nordeste. Não se trata apenas de uma universidade situada fora das capitais; trata-se de uma universidade que nasceu como resposta política e social às desigualdades territoriais do acesso ao ensino superior.

Estar em Mossoró não é um detalhe geográfico. Mossoró é uma cidade marcada por tradições de resistência, autonomia e protagonismo social. Uma universidade que se enraíza nesse solo carrega, quase como destino histórico, a vocação para a emancipação social. A UERN é herdeira dessa cultura cívica. Ela amplia direitos onde antes havia carências e transforma o interior em espaço de produção de conhecimento, não apenas de recepção de políticas públicas.

Sua forte política de interiorização — presente em Assú, Caicó, Patu, Pau dos Ferros (Pau dos Ferros a comarca onde meu avô Floriano Cavalcanti de Albuquerque, iniciou sua carreira de magistrado) e Natal (onde ele a concluiu alcançando a presidência do Tribunal de Justiça além de Diretor da Faculdade de Direito), — revela uma compreensão profunda do que significa democratizar a universidade. Não esperar que o estudante vá até o centro, mas levar o centro do conhecimento até onde o povo está. Para mais, considerando a referência a meu avô, ver https://estadodedireito.com.br/desembargador-floriano-cavalcanti-de-albuquerque-e-sua-brilhante-trajetoria-de-vida/.

Quando a UERN forma majoritariamente filhos e filhas da classe trabalhadora, ela está materializando o princípio de que o ensino superior é instrumento de mobilidade social e de justiça. Cada diploma entregue aqui representa uma ruptura de ciclo histórico de exclusão. Cada mestre e cada doutor formado não é apenas um título acadêmico, mas um novo agente de transformação regional.

Os marcos recentes reforçam esse caráter democrático. A extinção da lista tríplice pela governadora Fátima Bezerra não foi um ato meramente administrativo; foi um reconhecimento da maturidade democrática da instituição e do respeito à vontade de sua comunidade acadêmica. Do mesmo modo, a conquista da autonomia financeira e patrimonial significou libertar a universidade de amarras que limitavam sua capacidade de planejar o futuro. Note-se que essas são afirmações avançadas. Somente agora no âmbito das universidades públicas federais começa-se a alcançar esse requisito com a aprovação na Câmara dos Deputados ao final de 2025 do projeto de lei que extingue a lista tríplice. Projeto que ainda espera a deliberação do Senado. Uma luta antiga da comunidade universitária, que a então presidenta da Comissão de Educação da Câmara, deputada Fátima Bezerra liderou, com proposta nesta direção.

Realizar uma Aula Magna sobre educação como direito humano, com mediação da reitora Cicília Raquel Maia Leite, é simbólico. Significa afirmar que a universidade dialoga com a cidade, com a cultura, com a sociedade ampla. A universidade socialmente referenciada não se fecha em seus muros; ela se reconhece como parte do tecido social.

Talvez a melhor maneira de caracterizar a UERN seja esta: ela é uma universidade que não apenas ensina sobre emancipação — ela própria é fruto de um processo emancipatório coletivo. Nasceu de demandas sociais, cresceu com mobilização comunitária e se fortaleceu por escolhas democráticas.

Por isso, falar de UERN é falar de uma instituição includente no sentido pleno. Não só abre portas, mas cria condições de permanência, de pertencimento e de produção de futuro. Ela não forma apenas profissionais; forma sujeitos sociais capazes de intervir na realidade.

Numa época em que muitas universidades sofrem pressões de mercantilização, a UERN lembra que o ensino superior pode continuar sendo bem público, direito social e projeto de desenvolvimento humano.

E talvez resida aí sua maior contribuição ao país. Mostrar, a partir do interior, que a universidade pública pode ser ao mesmo tempo acadêmica, democrática e profundamente popular — no melhor sentido da palavra.

A Aula Magna de 2026, mediada pela reitora Cicília Raquel Maia Leite, ofereceu um cenário simbólico. Falar de emancipação educacional em um espaço cultural de Mossoró é dialogar com uma cidade cuja memória coletiva é marcada por resistência, pioneirismo e afirmação de direitos. Mossoró construiu, ao longo do tempo, uma identidade ligada à autonomia local, à participação cívica e à valorização da cultura como força política — elementos que ecoam diretamente no projeto universitário de formação crítica.

O referenciamento social da UERN também ganha densidade quando articulado ao protagonismo feminino da região. Mossoró entrou para a história brasileira quando Celina Guimarães Viana se tornou a primeira mulher a exercer o direito de voto no país, em 1927. Esse pioneirismo não é apenas um dado histórico, mas um signo de uma cultura local aberta à ampliação de direitos e à ruptura de hierarquias tradicionais. Vincular a universidade a essa herança é sublinhar que a inclusão e a igualdade de gênero não são agendas importadas, mas têm raízes locais.

No mesmo fio histórico do protagonismo feminino potiguar, cabe lembrar Alzira Soriano, reconhecida como a primeira mulher eleita prefeita no Brasil e na América Latina, em 1928.

Ela foi eleita no município de Lajes, também no Rio Grande do Norte, em um contexto regional muito próximo ao de Mossoró e integrado às mesmas dinâmicas políticas e sociais do interior potiguar. Sua eleição ocorreu logo após a conquista do voto feminino no estado, que teve como marco pioneiro a eleitora Celina Guimarães (penso mais uma vez no quadro representativo que orna o gabinete da Reitora).

Para o seu referenciamento institucional, Alzira Soriano reforça a ideia de que o RN — e em particular a região de Mossoró — foi laboratório histórico de ampliação de direitos das mulheres. Inserir essa memória na caracterização da universidade permite mostrar que a vocação inclusiva e emancipatória não é apenas um projeto contemporâneo, mas continuidade de uma cultura política local que, desde cedo, tensionou estruturas excludentes.

Por isso evoquei a experiência de Paulo Freire em Angicos — politicamente e simbolicamente ligada a Mossoró — que reforça o horizonte emancipatório. A pedagogia freireana mostrou, naquele território, que alfabetizar é também politizar, isto é, permitir que sujeitos leiam o mundo e se reconheçam como agentes históricos. Aproximar a UERN dessa tradição é situá-la como continuidade de um projeto nordestino de educação libertadora.

Não posso finalizar sem uma referência a reitora Cicília Raquel Maia Leite. Da estirpe dos grandes protagonismos que recortam a participação política e acadêmica, desde o território, a Reitora pode ser apresentada como uma liderança que articula, de modo raro e virtuoso, expressão acadêmica e projeção institucional. À frente da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, sua trajetória se associa à defesa de uma universidade socialmente referenciada, comprometida com interiorização, inclusão e qualidade acadêmica. Sua atuação pública tem reforçado a ideia de que a gestão universitária é também um ato pedagógico e político, na medida em que afirma valores democráticos, autonomia institucional e responsabilidade social.

Essa dimensão ganha amplitude nacional com sua posição na Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais. Como presidenta da entidade, Cicília Maia projeta a experiência da UERN para além do contexto regional, inserindo-a no debate estratégico sobre o papel das universidades estaduais e municipais no sistema de educação superior brasileiro. Foi aí que a conheci e me vi testemunha de sua atuação entre pares, de que sua liderança corporativa não é meramente representativa, mas formuladora, forte na contribuição para pautar financiamento, autonomia, inclusão e cooperação interinstitucional.

Não me refiro a Reitora por cortesia, mas por reconhecimento de sua capacidade e disposição de representar toda uma comunidade, inclusive em meio a vozes ocasionais que, no debate público, chegam a cogitar a privatização do ensino superior estadual, no que a melhor resposta não tem sido a polêmica, mas a própria trajetória da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. A UERN se tornou, ao longo de décadas, uma evidência viva de que a universidade pública, quando socialmente referenciada, não é gasto, é investimento civilizatório. Ela nasce do interior e para o interior, dialoga com as periferias urbanas, acolhe a primeira geração universitária de milhares de famílias e transforma destinos individuais em patrimônio coletivo de desenvolvimento.

Quando se exalta a UERN, não se faz apenas a defesa de uma instituição, mas de uma concepção de educação como direito humano e como política de igualdade. Privatizar, nessa perspectiva, significaria reverter uma conquista histórica do povo potiguar. A de reconhecer que o saber não pode ser privilégio de poucos nem mercadoria regulada pela capacidade de pagamento, mas bem público orientado pelo interesse social.

A comunidade acadêmica da UERN tem compreendido isso com clareza. Seu protagonismo não se limita à sala de aula ou ao laboratório; ele se expressa na defesa da autonomia universitária, na participação democrática, na produção de conhecimento voltado às realidades regionais e na formação de profissionais comprometidos com a transformação social. É esse enraizamento que dá legitimidade à universidade e a protege de visões meramente fiscalistas ou mercantis.

E tem sabido levar essa experiência para associá-la a incidências ampliadas do ponto de vista da articulação programática no plano nacional. Foi nesse contexto que conheci a Reitora Cicília Maia. A ocasião foi a realização em Brasília do 74º Forum Nacional de Reitoras e Reitores da ABRUEM (Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais) – e suas conexões com a agenda estratégica para o desenvolvimento territorial do Brasil.

Organizado a partir das agendas das Câmaras em que se estrutura – Câmara de Assuntos Estudantis e Políticas Afirmativas, Câmara de Gestão e Governança, Câmara de Saúde e Hospitais de Ensino, Câmara de Internacionalização e Mobilidade Acadêmica, o Forum se desenvolveu a partir de palestras, painéis, debates e relatos de experiências.

Fui o palestrante da abertura no espaço da Câmara de Assuntos Estudantis e Políticas Afirmativas, com o tema “Assuntos Estudantis e Políticas Afirmativas – conexões com a agenda estratégica para o desenvolvimento territorial e do Brasil”.

Pautei minha exposição sob a perspectiva de que o tema permite articular dois campos que, embora às vezes sejam tratados separadamente, têm interdependência estratégica: a atuação de Assuntos Estudantis e Políticas Afirmativas no ensino superior e a agenda de desenvolvimento territorial e nacional, quando entendida de forma inclusiva, democrática e sustentável.

Em qualquer caso, uma articulação que pressupõe um contexto. Desde logo, ter como baliza o entendimento de que assuntos estudantis não se restringem a serviços administrativos — são um campo estratégico que garante condições de permanência, participação e protagonismo dos estudantes no projeto acadêmico.

Vale dizer, tomar posição, tal como se estabeleceu no plano constitucional, no entendimento de que educação é um direito e um bem social, público, enquanto tal, fora de mercado, não podendo ser reduzido a injunções de mercado, porque responde a pressupostos estratégicos necessários ao desenvolvimento do País.

À luz do debate que se travou o que se definiu foi a importância de constituir uma agenda estratégica para o desenvolvimento territorial e nacional, constituída por experiências orientadas por políticas de assuntos estudantis e por políticas afirmativas, cujo desempenho já avaliado, revela que elas contribuem para reduzir desigualdades regionais, considerando o sistema ABRUEM, com a interiorização e fortalecimento de campi em áreas menos atendidas; colaboram para ações de inovação com base na diversidade inserida em práticas de ciência e tecnologia pensadas a partir de problemas locais; e levam a consolidar redes de solidariedade e cooperação, movidas pelo protagonismo estudantil em movimentos sociais, culturais e econômicos, evitando evasão e desperdício de investimento público com a permanência estudantil como política de eficiência. Ao fim e ao cabo, conferem ampliação da cidadania e do tecido democrático na medida em que estudantes formados com compromisso social retornam aos territórios como agentes de transformação.

Por isso, que celebrar a UERN, pode-se afirmar com serenidade, é defender a universidade pública estadual, especialmente em contextos historicamente marcados por desigualdades, é instrumento de coesão social, mobilidade e cidadania. Sua força não está apenas nos indicadores acadêmicos, mas na confiança que a sociedade deposita nela como espaço de futuro. Defender a UERN, assim, não é um gesto corporativo; é reafirmar um pacto social segundo o qual educação superior pública, gratuita e de qualidade é parte do projeto democrático de desenvolvimento. A Universidade Social: desafios e avanços de Cicília Raquel Maia Leite é uma expressão eloquente desse pacto-compromisso.